Mercosul vive isolamento, adverte Fernando Henrique Cardoso

Da Redação | 19/07/2006, 18h02

A decisão dos Estados Unidos de celebrar acordos comerciais com diversos países da América Latina levou o Mercosul a experimentar um "certo isolamento", acredita o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A seu ver, esse isolamento só não tem prejudicado mais o Brasil por causa do grande aumento da produtividade obtido ao longo dos últimos 15 anos e da favorável situação econômica internacional. "No momento em que a condição favorável no mundo desaparecer", alerta Cardoso, "essa falta de acordos vai ser sentida". Eis a íntegra da entrevista.

Agência Senado - Após a mudança de orientação política no Brasil, como o senhor avalia a atual situação do Mercosul?

Cardoso - Eu não sei se mudou a orientação política. A posição do Brasil sempre foi a de prestigiar o Mercosul. Mas como é que se faz isso? Aí, sim, as coisas são um pouco mais complicadas e também não é em função de um corte entre este governo e o anterior, é uma questão mais ampla. Acho que não houve na formação do Mercosul uma decisão efetiva de integração, como houve na Europa. Não transferimos parcelas de poder e soberania de nenhum de nossos países para um órgão supranacional. Não conseguimos fazer a fusão de capitais, que seria útil para que houvesse um amálgama mais forte entre os países envolvidos. Não distribuímos o processo produtivo no espaço geográfico como se ele fosse o mesmo. Continuamos concentrando, e a conseqüência disso é que a Argentina aumenta tarifas, em função de favorecer uma indústria nacional para competir com a brasileira.

Agência Senado - Ou então enfrentamos esse problema com o Uruguai, em torno da instalação de fábricas de celulose.

Cardoso - Ou com o Uruguai. Reduzimos o Mercosul a seu aspecto quase de acordo comercial. Não fizemos uma integração produtiva, porque não tomamos a decisão.

Agência Senado - Como pode ser feito isso, na sua opinião?

Cardoso - Agora já ficou um pouquinho tarde. Houve um enorme concentração de investimento produtivo no Brasil, por parte de empresas multinacionais e por empresas brasileiras também, que são poderosas. Elas se localizaram no Brasil, com o objetivo de ter o mercado do Mercosul. Mas isso produz uma desigualdade. Evidentemente, os outros países estão se ressentindo dessa desigualdade. Não houve investimento no momento correspondente nos outros países, principalmente na Argentina, que é o país que teria mais condições. E não houve uma especialização. Há uma dificuldade grande neste momento, que gera uma certa insatisfação, principalmente com relação ao Brasil, o país que mais avançou.

Agência Senado - O caminho seria voltar a uma área de livre comércio, ou aprofundar a integração?

Cardoso - Sempre fui favorável a aprofundar a integração. Há outro problema: juntamente com a questão do Mercosul houve a questão da Alca [Área de Livre Comércio das Américas], e aí, sim, há uma diferença grande entre a orientação do meu governo e a do atual. O meu governo colocou condições em que o Brasil concebia a formação de um mercado comum. Eram condições duras, mas havia o objetivo de se fazer uma integração na Alca. Agora não. A partir da reunião de Miami [em dezembro de 2004], a decisão foi a de que cada país toma desse cardápio de opções o que deseja. Resultado: os Estados Unidos, que perderam o interesse pela Alca, resolveram que era melhor para eles fazer acordos bilaterais. E fizeram. Isso levou o Brasil a uma posição de isolamento. O Brasil só não, o Mercosul. Porque, na medida que os Estados Unidos fazem acordos bilaterais com o Peru, a Colômbia, o Chile, a América Central, eles tiram a vantagem que nós tínhamos com esses países em acordos no âmbito da Aladi [Associação Latinoamericana de Integração].

Agência Senado - Estão fazendo uma Alca sem o Brasil?

Cardoso - Estão fazendo. Pior, ganhando condições de competitividade frente ao Brasil que não tinham antes. A produção industrial brasileira basicamente é absorvida pelos Estados Unidos e pela América Latina. Se perdermos algumas preferências na América Latina em benefício dos Estados Unidos, isso vai ter conseqüências. Aí, houve um certo isolamento. Uma posição do Brasil, a meu ver correta, foi a de jogar para o âmbito da OMC [Organização Mundial do Comércio] as definições de certas questões fundamentais, porque nós teríamos talvez mais vantagens no âmbito global do que no regional. Agora, vamos ver o que vai acontecer nas negociações de Doha [no Catar]. Mas nossa posição é de relativo isolamento. Por que é que isso não nos tem afetado maiormente? Por duas razões. Houve enorme aumento de produtividade, na parte agrícola e na industrial. O que foi feito nos últimos 15 anos foi uma revolução. E a situação internacional está muito favorável. No momento em que a condição favorável no mundo desaparecer, essa falta de acordos vai ser sentida.

Agência Senado - Com o ingresso da Venezuela, há risco de uma "ideologização" do Mercosul?

Cardoso - Espero que não; isso seria bastante ruim para o Mercosul. Mas há sempre um certo risco. Nossa idéia sempre foi de integração da América do Sul. A Venezuela é bem-vinda, mas não para trazer confrontos em momentos que não nos interessem.

Agência Senado - Alguns setores da oposição estão preocupados com a possibilidade de o ingresso da Venezuela retardar as negociações para a formação da Alca e para um acordo de livre comércio com a União Européia. O senhor concorda?

Cardoso - Em relação à Alca, acho que não vai haver mais negociação nenhuma. Nem o Brasil teve interesse, nem os Estados Unidos, que entraram no caminho bilateral. Com relação à União Européia, sim; aí pode haver problema. Mas é preciso que o Brasil reassuma a liderança do bloco. Liderança não é uma coisa que se impõe; tem de ser por persuasão, pelo peso específico do Brasil. O Brasil tem peso específico, mas tem que, sem arrogância, exercer, na prática, essa liderança. Aí, sim, faria uma crítica: fomos muito arrogantes e pouco efetivos no exercício da liderança.

Agência Senado - A Alca morreu?

Cardoso - Está congelada. Os americanos perderam o interesse na Alca. Duvido que o Congresso americano dê ao presidente autoridade para assinar acordos como teria dado no passado. Os Estados Unidos vivem hoje um momento de um certo protecionismo e de busca de acordos mais limitados.

Agência Senado - E um acordo do Mercosul com os Estados Unidos é possível?

Cardoso - Seria bom. Tentamos várias vezes, mas os americanos nunca tiveram muito interesse. O problema deles é com o Brasil e o nosso é com eles. Seria útil, mas nunca vi espaço efetivo para isso.

Agência Senado - O Paraguai e o Uruguai têm reclamado do que chamam de assimetrias e ameaçam, às vezes, sair do Mercosul. O que pensa disso?

Cardoso - O que o Uruguai deseja neste momento é fazer um acordo direto com os Estados Unidos. Eles dizem que o Brasil fez um acordo automobilístico com o México e perguntam por que não podem fazer um de carnes. De fato, quando há relação entre países de condições econômicas muito desiguais, se quiser integração efetiva, é preciso ter um mecanismo compensatório. A Europa fez isso. O problema nosso é que nem o Brasil nem a Argentina têm uma posição efetiva, como tiveram a Alemanha e a França em relação a Portugal e à Grécia. Acho que não houve uma política focalizada para obter uma satisfação maior por parte do Uruguai e do Paraguai. Não houve entrosamento maior de nossas economias, esse é o verdadeiro calcanhar de Aquiles do Mercosul.

Agência Senado - O que pode ser feito agora para resgatar o projeto original do Mercosul?

Cardoso - Em primeiro lugar, não devemos concordar com essas perfurações sistemáticas do Mercosul. Ainda agora com a Argentina, o que acontece é um retrocesso na integração. A Argentina é um grande país, uma economia poderosa, uma cultura fantástica, com uma população educada. Por que é que ela tem que competir com o Brasil e fazer fogão ou geladeira? É uma indústria de outra época. Por que não vai para o setor, digamos, mais avançado da modernização, em software? Junto com o Brasil, quem sabe. Falta pensamento de política econômica concreta, muito mais do que acordos comerciais.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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