Irmão de Celso Daniel reafirma denúncias a chefe de gabinete de Lula

Da Redação | 06/10/2005, 00h00

Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito dos Bingos, nesta quinta-feira (6), Bruno José Daniel Filho, irmão mais novo de Celso Daniel - o prefeito de Santo André (SP) assassinado à queima roupa com oito tiros em janeiro de 2002 - confirmou que o atual chefe do gabinete pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, sabia do esquema de corrupção que existia na prefeitura de Santo André na época do assassinato. Quando Celso Daniel morreu, Carvalho trabalhava como assessor na prefeitura de Santo André e teria confessado ao próprio Bruno e a seu outro irmão, João Francisco Daniel, o esquema que envolvia arrecadação ilegal de recursos para abastecer o caixa 2 do PT, com o objetivo de financiar as campanhas eleitorais.

 Eu e meu irmão ficamos surpresos com a detalhada revelação de Gilberto Carvalho, feita logo após a missa de sétimo dia de Celso Daniel. Ele nos informou que chegou a ir sozinho a São Paulo, dirigindo o seu corsa de cor preta, para entregar ao então presidente do PT, José Dirceu, a quantia de R$ 1,2 milhão - denunciou Bruno José.

No depoimento, Bruno disse considerar que a confissão de Carvalho pode ter tido o intuito de intimidá-los, funcionando como uma espécie de alerta sobre a possibilidade de o irmão deles também estar envolvido na captação dos recursos ilegais. Dessa forma, se Bruno e João Francisco falassem sobre o assunto, poderiam comprometer a imagem de Celso Daniel. O esquema envolvia arrecadação de dinheiro, principalmente junto a empresas de lixo e de transportes do município.

Bruno José informou também que encontrou no apartamento do irmão morto um envelope, com a letra de Gilberto Carvalho, contendo "indicações de enriquecimento ilícito" de pessoas ligadas à prefeitura de Santo André. Gilberto Carvalho, Bruno e João Francisco deverão participar de acareação promovida pela CPI dos Bingos, em reunião ainda a ser marcada, de acordo com requerimento de autoria do senador Geraldo Mesquita Júnior (PSOL-AC) aprovado na última terça-feira (4).

Bruno Daniel já antecipou como será o clima da acareação, ao deixar claro aos membros da CPI que acredita que Gilberto Carvalho "não vem falar a verdade". Essa afirmação, no entanto, foi contestada pelo senador Tião Viana (PT-AC), que fez questão de afirmar que Gilberto Carvalho é "um homem íntegro, que possui uma biografia sagrada".

Encomenda

O irmão de Celso Daniel garantiu ainda que todas as evidências indicam que Celso Daniel foi morto de forma planejada, "por encomenda" -razão pela qual afastou a hipótese de crime comum indicada pelo inquérito policial que investigou o crime. Ele acredita que a reabertura do caso pelo Ministério Público do Estado de São Paulo poderá apontar os nomes dos mandantes do assassinato e de quem apertou o gatilho.

Bruno Daniel também não descartou a hipótese de envolvimento no crime do secretário de Obras de Santo André no período em que Celso Daniel era prefeito, Klinger de Oliveira Souza; do empresário ligado a empresas de coleta de lixo, Ronan Maria Pinto, além de Sérgio Gomes da Silva, conhecido como Sombra, ejá indiciado, segundo ele, como mandante do assassinato de Celso Daniel. Ele também revelou que um preso, cujo nome é mantido em sigilo por determinação policial, teria dito que o assassinato de Celso Daniel foi encomendado pelo valor de R$ 1 milhão.

Bruno Daniel iniciou seu depoimento lançando suspeitas sobre o primeiro inquérito instaurado para apurar a morte do irmão, que resultou, em sua opinião, em "uma história mal contada". Afastou a hipótese de que o então prefeito de Santo André tenha sido sequestrado por engano e que não tenha sido torturado, conforme havia informado à CPI o deputado Luis Eduardo Greenhalgh - advogado indicado pelo PT para acompanhar o caso. Lembrou que o inquérito conduzido pela polícia civil paulista estava "carregado de irregularidades", inclusive faltando uma página no livro da perícia, além de não ter sido encaminhado ao Poder Judiciário, como de praxe, o laudo da necropsia.

Com os detalhes confirmados por Bruno Daniel, parlamentares da oposição, a exemplo do líder do PFL, José Agripino (RN), disseram não ter mais dúvidas de que o assassinato de Celso Daniel foi um crime político.

Presidente da CPI dos Bingos acredita que acareação mostrará quem está mentindo

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)