Acareados se desmentem, discutem, trocam acusações e negam que sejam corruptos
Da Redação | 05/10/2005, 00h00
Durante toda a chamada "superacareação" na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Bingos, Waldomiro Diniz, Enrico Gianelli, Rogério Tadeu Buratti, Marcelo José Rovai e Carlos Augusto de Almeida Ramos (Carlinhos Cachoeira) trocaram acusações e insultos, relataram acontecimentos de maneiras díspares e juraram inocência perante os senadores. Todos, em algum momento, foram chamados de "mentirosos"; alguns chegaram a ser classificados de "bandidos".
No início da reunião desta quarta-feira (5), o presidente da comissão, senador Efraim Morais (PFL-PB), mandou que Gianelli exibisse o organograma, elaborado pela Gtech e entregue à Polícia Federal, que retratava o "mapeamento político" do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Rovai, ex-diretor de marketing da GTech no Brasil, aparecem nesse mapa "formadores de opinião no governo", "pessoas com função mais direta com a Caixa Econômica Federal" e também os principais executivos da Caixa, instituição com a qual a empresa firmou contrato para operar o sistema de loterias federais.
Rovai alegou que esse organograma era o início de uma tentativa da GTech de se aproximar e fazer com que o novo governo percebesse que a multinacional era "uma empresa séria e que poderia ajudar o país". O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) perguntou se a multinacional também tinha o mapa político do governo Fernando Henrique Cardoso e o ex-diretor de marketing garantiu que sim.
Efraim disse acreditar que o mapa seria uma espécie de "organograma de influenciáveis" a quem lobistas da GTech poderiam recorrer nas negociações com a CEF. Ali aparecem nomes como o de Henrique Meirelles, Luiz Fernando Furlan, José Dirceu, Waldomiro Diniz e Antonio Palocci, além de diretores da Caixa. Já Rovai assegurou que o documento servia apenas para que a empresa pudesse "conhecer bem o novo governo, sem nenhuma segunda intenção".
Insultos
Rovai e Buratti se desentenderam diversas vezes durante a acareação. Buratti considerou estranho a Gtech recorrer a um lobista, chamado Afrânio Nabuco, para agendar uma reunião com a presidência da CEF, já que a multinacional tinha um contrato milionário com a estatal. Rovai disse que Afrânio, "consultor contratado pela GTech em fevereiro de 2003", foi realmente chamado para ajudar a empresa a conseguir audiência com o presidente da estatal.
— Entrei em 2002 na GTech e a empresa sempre teve dificuldades em falar com os presidentes da Caixa - informou Rovai.
Buratti também acusou "um grande dirigente da GTech" de ser, atualmente, dono de uma agência franqueada dos Correios. Rovai respondeu que nem ele nem a GTech tinham qualquer agência franqueada dos Correios. Buratti acusou ainda a Gtech de, por intermédio de Rovai, lhe oferecer propina de R$ 500 mil a R$ 16 milhões (o valor dependeria dos termos conseguidos na renovação do contrato) caso a CEF fechasse negócio com a multinacional. Já Rovai acusou Buratti de ter lhe pedido propina para facilitar a renovação do contrato.
— A GTech nunca corrompeu ninguém e não é uma empresa corrupta. As duas empresas conversavam muito mal por causa do embate jurídico - disse Rovai, referindo-se à briga judicial entre GTech e CEF à época da renovação do contrato.
A certa altura da acareação, o relator da CPI dos Bingos, senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), informou que o Tribunal de Contas da União (TCU) realizou auditoria sobre o contrato e chegou à conclusão de que a CEF teve prejuízos da ordem de R$ 433 milhões nos negócios com a GTech.
Rovai também atacou Waldomiro Diniz ao dizer que o ex-presidente da Loterj teria se apresentado à GTech como o representante do governo federal que poderia influenciar nas negociações. Waldomiro disse que Rovai "mentiu e ainda mente", pois teria afirmado que ele, Waldomiro, teria apresentado Buratti à multinacional como um possível lobista junto à estatal. Waldomiro afirmou só ter conhecido Buratti pessoalmente nesta terça-feira (4), quando os cinco acareados foram depor na PF. A afirmação foi confirmada por Buratti.
Cachoeira
Quando a acareação já durava duas horas e meia, o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) reclamou que Carlinhos Cachoeira tinha falado muito pouco e pediu que o empresário usasse da palavra para "ajudar o país".
— Depois que gravei o Waldomiro me pedindo propina, ninguém ajudou mais esse país do que eu - declarou Cachoeira.
A senadora Ideli Salvatti (PT-SC) disse que Cachoeira guardou por dois anos a gravação de Waldomiro pedindo propina e que só decidiu usá-la quando achou conveniente.
Waldomiro alegou que teve apenas três reuniões com representantes da GTech. Na primeira, os executivos da multinacional apenas teriam feito uma apresentação da empresa. O ex-assessor da Casa Civil da Presidência da República também disse que, a seu pedido, não foram discutidos negócios entre a Gtech e a CEF em nenhuma das três reuniões.
— Eu disse: não sou a pessoa do governo para tratar com vocês desse assunto. Nunca pedi um centavo à GTech e nunca indiquei ninguém. Inclusive não relatei tal reunião a José Dirceu, meu chefe - acrescentou Waldomiro.
Já Rovai afirmou que, na terceira reunião, teria dito a Waldomiro que Buratti havia procurado a GTech e tentado extorquir a empresa. Ainda de acordo com Rovai, Waldomiro teria dito que conhecia Buratti e que ele seria a pessoa para influenciar nas negociações. Rovai chegou, inclusive, a chamar Waldomiro e Buratti de "bandidos". O senador Romeu Tuma (PFL-SP) disse acreditar que a GTech realmente realizou tráfico de influência para renovar os contratos com a Caixa.
Também participaram da chamada superacareação os senadores José Jorge (PFL-PE), Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), Geraldo Mesquita Júnior (PSOL-AC) e Tasso Jereissati (PSDB-CE).
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
MAIS NOTÍCIAS SOBRE: