Que bloco é esse?

Da Redação | 30/09/2005, 00h00

Primeiro bloco criado na onda do movimento afrocentrista que ganhou força na Bahia a partir dos anos 70, em pleno domínio do carnaval do frevo, o Ilê Ayiê - que significa "casa dos negros" em iorubá - vem dando grande contribuição para alargar para afirmação dos segmentos mais vivos da resistência política e cultural da população negra de Salvador.

A primeira música levada às ruas, em 1975, já deixava claro que vinha para fazer diferença. Composta por Paulinho Camafeu e conhecida mais amplamente na voz de Gilberto Gil, a canção anunciava que o Ilê vinha para a avenida para cantar o mundo negro e colocava na voz de seus ainda poucos integrantes o orgulho de ser crioulo, de cabelo duro black power.

O líder do grupo, Antonio Carlos Santos Vovô, ou simplesmente Vovô, o apelido agora já incorporado ao nome, lembra que os negros ainda não assumiam sua condição racial à época. Havia ainda o medo generalizado da repressão política militar daqueles anos, quando qualquer manifestação cultural e política era reprimida e até associada à ação comunista.

O simples fato de se assumir a herança africana, propondo seu resgate e expansão, fazia do Ilê um bloco essencialmente político, renovador. No primeiro desfile, seus integrantes carregavam cartazes como inscrições como "Mundo Negro", "Negro para Você" e a desafiadora "Black Power". Como reação, jornal de peso na cidade saiu com editorial taxando o bloco de "racista" e creditando aos "mocinhos" do Ilê filiação ideológica reprovável.

A partir do Ilê, ganha força no carnaval baiano os ritmos e melodias oriundos da tradição africana, mais um elemento de afirmação de sua identidade que passaria a influenciar o jeito baiano de fazer a festa. A apropriação do passado africano também se vincula ao espaço da fé. O bloco teve início no terreiro de mãe Hilda Jitolu, conhecida mãe-de-santo da cidade. Mãe de Vovô, ela criou o filho no respeito ao candomblé.

Com cerca de 3 mil associados atualmente, o Ilê hoje é mais que uma instituição sócio-carnavalesca. A entidade coordena um conjunto de ações de cunho cultural e social, voltados à valorização da comunidade negra onde tem origem. O Curuzu está situado na Liberdade, habitado por cerca de 600 mil dos cerca de 3 milhões de habitantes da capital baiana. Mais do em qualquer outra área, ali está a maior concentração de negros da cidade.

No debate sobre o Estatuto da Igualdade Racial, realizado na sede do Ilê, na última segunda-feira, Vovô anunciou aos presentes que o Ilê agora quer dar um passo à frente no objetivo de garantir representatividade aos negros na sociedade baiana. Segundo ele, o "papo" agora é o poder. Para isso, afirma que a partir do próximo ano os cursos oferecidos à comunidade local vão incluir conteúdos de formação política visando preparar futuros candidatos a cargos eletivos, seja por qualquer partida.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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