Prefeito mineiro é acusado de envolvimento com tráfico de pessoas
Da Redação | 19/08/2005, 00h00
Em depoimento prestado à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Emigração na quinta-feira (18), Lúcia Pereira, moradora de São Félix de Minas (MG), acusou o prefeito daquela cidade, Wanderley Vieira de Souza, do PT, de ser o chefe de uma quadrilha que leva ilegalmente brasileiros para o exterior. A denúncia foi feita durante audiência pública da comissão na cidade mineira de Governador Valadares.
Lúcia contou aos integrantes da comissão que seu filho Wendel Johnatan Pereira, de 23 anos, morreu poucos dias depois de atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos, levado pela quadrilha que seria comandada por Wanderley da Silva. A causa da morte teria sido, segundo ela, uma crise asmática em decorrência da travessia nas águas geladas do Rio Grande, na divisa do México com o estado norte-americano do Texas.
De acordo com a mãe de Wendel, o rapaz teria morrido em janeiro deste ano, mas a notícia só chegou à família no mês seguinte. Nesse meio tempo, o prefeito de São Félix de Minas teria, segundo ela, mentido para a família, dizendo que o rapaz estava preso.
Wanderley de Souza já havia sido convidado pela CPI para depor na audiência de Governador Valadares. Em março deste ano, a revista Istoé publicou uma reportagem na qual o prefeito é apontado como um dos principais "cônsules" da região de Valadares. "Cônsul" é o nome que recebem, na cidade, os financiadores das quadrilhas que levam emigrantes ilegalmente para os Estados Unidos. Depois do depoimento de Lúcia Pereira, a CPI pretende fazer uma acareação entre ela e o prefeito.
Na quinta-feira (18), outro depoimento ressaltou as dificuldades por que passam os brasileiros que entram ilegalmente nos Estados Unidos. Maria Auxiliadora Farias relatou que seu marido, Agnaldo Farias Moreira, foi encontrado morto em uma pensão em Miami, no estado americano da Flórida, no último dia 12. Contou ainda que Agnaldo havia tentado entrar nos Estados Unidos três vezes, chegando a ser preso e deportado em uma dessas ocasiões.
De acordo com Maria Auxiliadora, o marido trabalhava como pintor naquele país, onde morou por nove meses, mas mandava pouco dinheiro para a família no Brasil.
Maria Auxiliadora e Lúcia Pereira pediram ao presidente da CPI, senador Marcelo Crivella (PL-RJ), que ajudasse a providenciar o traslado dos corpos de Wendell e Agnaldo para o Brasil. O senador disse que no Brasil não há verbas no Orçamento para trazer corpos de brasileiros mortos no exterior, mas informou que já há um projeto nesse sentido. Mesmo assim, Crivella anunciou que pretende trazer os corpos de Wendel e Agnaldo no próximo vôo que trará brasileiros presos nos Estados Unidos por tentarem entrar ilegalmente no país.
Vanderléia Souza Novais, amiga de Maria Auxiliadora, deu informações sobre o caso de Agnaldo e emocionou-se ao falar que seu filho de vinte anos também quer deixar o Brasil. Ela contou que ele está desempregado e sem esperanças. Vanderléia assegurou, no entanto, que não permitirá que o filho viaje ilegalmente.
- É muito triste que um jovem seja seduzido por quadrilhas de coiotes para buscar seus sonhos - lamentou Vanderléia. Coiote é o nome dado a pessoas que facilitam a travessia ilegal.
Para o relator da CPI, deputado João Magno (PT-MG), os depoimentos demonstraram a necessidade de se promoverem profundas mudanças na legislação brasileira, que hoje não tipifica como crime o "tráfico de pessoas", a não ser quando seja comprovado envolvimento com a prostituição. Ele também destacou a necessidade de o governo brasileiro apoiar os cidadãos que vivem no exterior.Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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