Afrodescendentes devem rejeitar submissão aos poderosos, diz Abdias Nascimento

Da Redação | 13/05/2005, 00h00

O ex-senador Abdias do Nascimento lembrou nesta sexta-feira (13), durante audiência pública da Subcomissão da Igualdade Racial, que os afrodescendentes são maioria no Brasil e que a democracia foi implantada no país para que a vontade da maioria seja respeitada. Para Abdias, a democracia não é apenas um nome ou uma legenda, mas deve ser algo vivo e que funcione. Ele enfatizou que os negros não devem se submeter aos que têm poder político e econômico.

- Não temos que pedir licença nem mendigar caridade ou falar de cabeça baixa. Temos que olhar olho no olho e rejeitar a submissão à classe que se julga única proprietária - salientou Abdias.

O ex-parlamentar destacou ainda que a riqueza do Brasil foi construída por mãos escravas e que a base da economia se formou pelo "esforço e pelo sangue dos negros". Ele afirmou que, apesar de o país ser uma República e a princesa Isabel ter assinado a Lei Áurea, ainda existem resquícios de racismo.

- Minha voz já está rouca, cansada e enferma, mas será sempre uma voz indignada, uma voz de combate, uma voz de labaredas de fogo para podermos torrar o racismo e o colonialismo que sobrou do tempo da escravidão.

Abdias do Nascimento foi senador, representando o estado do Rio de Janeiro pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) em 1991 e de 1997 a 1999. Como deputado federal, ele apresentou o primeiro projeto de lei propondo políticas públicas de ações anti-racistas voltadas para a população afrodescendente.

Nascido em Franca (SP), em 1914, e neto de africanos escravizados, Abdias vive uma história de luta contra o racismo. Participou da Frente Negra Brasileira na década de 30 e, no início dos anos 40, criou o Teatro do Sentenciado no Carandiru, onde cumpria pena por uma manifestação de resistência contra o racismo. Ele foi o primeiro negro a levar uma peça ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Chamada de Imperador Jones, a peça foi encenada em 1944.

Duas secretarias do governo do estado do Rio de Janeiro foram fundadas por Abdias: a Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras (Seafro) e a de Direitos Humanos e Cidadania.

O ator, escritor e político Abdias do Nascimento lecionou nas universidades de Yale, Wesleyan, Temple, do Estado de Nova York - todas nos Estados Unidos - e na Universidade de Ifé, na Nigéria. O ex-parlamentar também esteve em importantes eventos do mundo africano, levando ao âmbito internacional a então inédita denúncia de ocorrência de racismo no Brasil.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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