Índios do MS querem liberdade e dignidade, diz especialista
Da Redação | 28/04/2005, 00h00
Em audiência pública nesta quinta-feira (28) na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), o representante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em Mato Grosso do Sul, Egon Heck, afirmou que a luta dos índios daquela região tem como objetivo "a reconquista de suas terras, do direito de terem espaço para viver com liberdade e dignidade e de serem tratados como um povo de cultura diferenciada, conforme garante a Constituição". A audiência foi realizada para analisar os casos de desnutrição de crianças indígenas ocorridos em Dourados (MS).
Egon Heck destacou que atualmente, no Mato Grosso do Sul, há 30 milhões de cabeças de gado, sendo que cada animal ocupa de um a três hectares. Já os índios Kaiowá-Guarani vivem com menos de um hectare por pessoa. Além disso, destacou, cinco bilhões de toneladas de soja deverão ser colhidos no Mato Grosso do Sul neste ano. "E essa soja não matará a fome das crianças Kaiowá-Guarani, que continuarão morrendo", disse o representante do Cimi.
Para entender o problema da desnutrição de crianças indígenas no Mato Grosso do Sul, é preciso, de acordo com Heck, buscar as causas, não somente para entendê-las, mas para revertê-las. Ele contou que os Kaiowá-Guarani têm sido vítimas de "imensas violências", foram submetidos a confinamento e, por isso, as muitas crianças morrem de fome e jovens se suicidam. Na opinião do missionário, tudo isso é resultado de uma proposta de desenvolvimento "ecologicamente predatória, concentradora, socialmente empobrecedora".
Outro convidado presente, o ex-membro da extinta organização não-governamental Projeto Kaiowá Nhandeva (PKN) Celso Aoki disse que a desnutrição entre os indígenas não terá solução sem uma coordenação de políticas favoráveis aos índios e sem consulta às lideranças da etnia. "Os agentes de órgãos públicos não consultam os índios, apenas entregam seus projetos, que são totalmente inadequados", afirmou.
Celso Aoki disse que há mais de dez anos os índios da região vem enfrentando problemas de desnutrição. Hoje, lidam também com alcoolismo, violência, suicídios, entre outros problemas, cuja causa principal, segundo ele, é a "relação dos índios com a terra". Aoki garantiu ter muito orgulho de ter participado da demarcação de terras indígenas na década de 90.
O antropólogo, que continua atuando em defesa dos direitos indígenas, agora a partir de Brasília, destacou que, no Mato Grosso do Sul, desde a metade do século passado os índios foram alocados pelo governo em reservas muito restritas, as quais, com o passar do tempo, foram se tornando pequenas demais para a quantidade de habitantes. As terras em torno das reservas foram transformadas em fazendas.
Aoki lembrou ainda que atualmente as comunidades indígenas têm que lidar com muitos projetos assistencialistas, sem nenhuma coordenação e todos com visão básica de que "índios têm que deixar de ser índios", passando a produzir excedentes. Já as missões, em sua opinião, se empenham em "substituir a alma" dos índios.
- A vida tradicional deles, embora pudesse parecer pobreza para nós, não era. Hoje, são pobres - disse.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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