Paim homenageia homem que morreu por atear fogo ao corpo em frente ao Planalto

Da Redação | 19/04/2004, 00h00

O senador Paulo Paim (PT-RS) apresentou nesta segunda-feira (19) requerimento de pesar pela morte do desempregado José Antônio Andrade de Souza, que morreu no sábado, vítima de queimaduras de 2º e 3º graus. Na terça-feira (13), ele havia ateado fogo ao corpo depois de pedir audiência ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O parlamentar gaúcho observou que Souza passou pelo menos dois dias na Praça dos Três Poderes carregando cartazes com os dizeres: "Senhor Presidente, vendi meu barraquinho para vir falar como senhor". De acordo com Paim, o desempregado, morador de Cariacica (ES), vendeu sua casa e alguns móveis por R$ 800, deixou R$ 200 com a mulher e só depois revelou seus planos de viajar a Brasília.

O corpo de José Antonio já foi transferido para o Instituto Médico Legal. Sua mulher, Maria das Dores Cláudia, grávida de quatro meses e com a filha de oito anos, chegou a Brasília na quarta-feira e vive agora outro drama: ela ainda não sabe como vai trasladar o corpo do seu marido até Cariacica.

- Ao imolar-se, repetindo atos praticados por monges budistas que protestavam contra a guerra do Vietnam na segunda metade do século passado, José Antonio tentava chamar atenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o problema do desemprego e pretendia ser recebido por ele - disse o senador petista.

Apoiado em aparte pelo senador Heráclito Fortes (PFL-PI), o parlamentar fez apelo ao governo para que, por meio de sua área de assistência social, promova a transferência do corpo de Souza até sua cidade. E requereu, além da aprovação e voto de pesar, o registro nos anais do Senado de versos seus em homenagem a José Antonio: "Ele se chamava José/Morreu ontem, 18 de abril de 2004/Deixou a mulher Maria, grávida, e uma filha de oito anos/Quantos Antonio, Paulo, João, Maria estão morrendo/ desesperados a cada dia, fruto da miséria, do desemprego e da fome?/Seu corpo se tornou uma tocha viva/Este cidadão de 40 anos morreu queimado, desempregado/Queria trabalhar, queria um salário, o coitado/Tombou em frente ao Palácio/O incêndio nas suas roupas, na sua carne/Parecia uma estrela cadente a pedir socorro/Se confundindo com os raios e trovões daquela manhã nublada de Brasília/Que estas chamas tão doloridas sirvam para iluminar nossas mentes/Para mostrar o caminho da humanidade/Na busca do emprego e do salário tão sonhado/Não nos deixem só a sonhar/O nosso povo está morrendo."

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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