EX-DONO DA ENCOL APONTA JUROS ALTOS E BANCO DO BRASIL COMO CULPADOS

Da Redação | 24/06/1999, 00h00

Num depoimento de cinco horas à CPI do Sistema Financeiro, o ex-dono da Encol, Pedro Paulo de Souza, afirmou nesta quinta-feira (dia 24) que a construtora quebrou por causa dos juros altos e da atuação do Banco do Brasil assim que começaram as dificuldades. "Numa inflação de quase zero ao ano, a Encol tinha de pagar por empréstimos juros superiores a 100% aos bancos do próprio governo", afirmou.Pedro Paulo acusou o Banco do Brasil de ter "enrolado a Encol por quase dois anos, com promessas de solução que nunca se cumpriam, enquanto os juros iam aumentando as dívidas e os mutuários se tornavam inadimplentes". Ele disse que o Banco do Brasil interferiu num momento em que o Banco Pactual negociava as dívidas bancárias da empresa e que Edson Soares Ferreira, ex-diretor de Crédito e Seguridade do BB, manobrou para que Pedro Paulo de Souza entregasse a presidência da Encol a uma pessoa da confiança do diretor. Essa pessoa, no entanto, "só trabalhava para que o BB recuperasse seus empréstimos". O ex-diretor Edson Ferreira será ouvido pela CPI nesta sexta-feira (dia 25), às 10h, junto com o atual diretor de Finanças do Banco do Brasil, Carlos Gilberto Caetano.Os problemas da Encol, conforme seu ex-dono, começaram no final de 94 quando o então ministro da Fazenda, Ciro Gomes, "instituiu um compulsório sobre os empréstimos, elevando violentamente as taxas de juros". Assim que Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência da República, Pedro Paulo conseguiu uma audiência com o presidente, quando expôs a situação da empresa. O ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge foi encarregado então por Fernando Henrique de encaminhar o empresário à Caixa Econômica Federal. - Eu me encontrei umas sete vezes com Eduardo Jorge, mas a Caixa só emprestou R$ 16,9 milhões, o que não resolvia nossos problemas. Hoje, por conta desse empréstimo concedido no segundo semestre de 95, a Caixa se habilitou junto à massa falida da Encol para receber exatamente R$ 535 milhões, um verdadeiro absurdo - acrescentou.Já o Banco do Brasil, com empréstimos de aproximadamente R$ 100 milhões, habilitou-se perante a massa falida para receber mais de R$ 300 milhões, sendo cerca de R$ 200 milhões só de juros. O Banespa, que havia emprestado à Encol R$ 48 milhões, quer agora receber R$ 1,05 bilhão, informou à CPI o ex-dono da Encol.Questionado pelo senador Carlos Bezerra (PMDB-MT), Pedro Paulo de Souza negou denúncias de que tenha remetido grandes somas de dinheiro para o exterior. O senador, tendo às mãos uma auditoria da empresa Delloite Touche Tohmatsu, questionou o ex-proprietário sobre movimentações feitas em caixa dois de R$ 300 milhões ao ano e sonegação de impostos. Pedro Paulo negou tudo e afirmou que o texto da auditoria que "menciona essas loucuras era apenas um rascunho".O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) quis saber das chances dos mutuários da Encol de receberem alguma coisa. Pedro Paulo informou que o juiz que acompanha a massa falida já autorizou o repasse a mutuários de 32 mil frações de edifícios. Nesse caso, os mutuários têm de pagar a construção, ou o término de obras. Revelou ainda que a empreiteira Camargo Corrêa, com financiamento do Bradesco, negocia a construção de 259 prédios.Compareceram também à CPI, nesta quinta-feira (dia 24), dois ex-diretores da empresa, Marcos Antônio Borela e Rodrigo Dimas de Souza, este, filho do empresário, que deram esclarecimentos complementares.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

MAIS NOTÍCIAS SOBRE: