MÃE DIZ QUE FILHO FOI ARRANCADO DE SUAS MÃOS
Da Redação | 11/05/1999, 00h00
O filho da taxista Cristiane Lopes, de 23 anos, foi arrancado de suas mãos um dia depois de nascer, durante o aleitamento, por ordem do juiz Luís Beetowen Giffoni Ferreira. Desde então, mãe e filho nunca mais se viram novamente. Essa história foi contada pela própria mãe, em lágrimas, à Comissão Parlamentar de Inquérito que apura irregularidades no Poder Judiciário.Cristiane foi a primeira das "Mães da Praça do Fórum" a prestar esclarecimentos à CPI, nesta terça-feira (dia 11), sobre o tráfico internacional de crianças com origem em Jundiaí (SP). Segundo ela, na época do parto, em 24 de novembro de 1997, estava desempregada e quis evitar que a família soubesse da gravidez. Diante da oferta, Cristiane pediu ajuda a assistentes sociais do Hospital São Vicente de Paula. Porém, ela disse que nunca pensou em doar seu filho para adoção. "Eu já tinha enxoval e nome para ele (Leonardo). Não pensei em dar meu filho em nenhum momento", afirmou.Mesmo diante das negativas, Cristiane disse que recebeu duas injeções que a deixaram sonolenta e foi solicitada a assinar um documento, cujo teor disse não ter condições de identificar. Ela contou que depois de acordar pediu às enfermeiras que trouxessem seu filho para amamentá-lo. Descobriu, então, que já havia determinação do juiz Beetowen, titular da 2ª Vara Cível de Jundiaí, afastando a criança dela.Segundo Cristiane, a única pessoa que solidarizou-se com ela foi a médica Marisa Viotti, que, com base no direito da criança de ser amamentada, enfrentou a ordem do juiz e permitiu que a mãe tivesse contato com o filho. Durante o aleitamento, disse a depoente, às 15h do dia 25 de novembro, uma enfermeira arrancou seu filho de seus braços. Nesse momento, Cristiane chorou ao dizer que resistiu o quanto pôde.Enquanto isso, mesmo sem saber da gravidez, Cristiane disse que sua mãe foi levada ao fórum de Jundiaí para assinar documento atestando que a filha, mãe de dois meninos, não tinha condições de criar uma terceira criança, por estar desempregada.SUSTOCristiane declarou que depois de deixar o hospital tentou de todos os modos falar com o juiz Beetowen e, quando conseguiu, ouviu dele que "pobreza era doença" e que ela não poderia criar seu filho. "Acima de mim, só Deus", teria dito o juiz, segundo a depoente. Dessa forma, Cristiane entrou no Movimento das Mães da Praça do Fórum. O processo em que pede para ter seu filho de volta, afirmou, está parado na Corregedoria de Justiça de São Paulo. Quanto a seu filho, Cristiane disse não saber onde está.- É inacreditável que tudo se tenha passado poucas horas após o nascimento da criança. Isso não poderia ter acontecido nunca - avaliou o relator da CPI, senador Paulo Souto (PFL-BA).A depoente declarou a Souto que o juiz designou um advogado, porém, seu defensor aconselhou-a a não entrar com processo "para não irritar o juiz" e que, se ela fosse com calma, Beetowen iria lhe devolver a criança. Segundo o advogado, disse, o juiz só estaria querendo lhe dar um susto. Mais tarde, Cristiane disse ter pedido a reversão do processo de doação e que até mesmo seu pai teria entrado com pedido de adoção do neto.Ao senador Carlos Wilson (PSDB-PE) a depoente disse que, pela sua reação à retirada de seu filho, a médica que lhe deu apoio sabe que não queria dar o bebê para adoção. A senadora Luzia Toledo (PSDB-ES), após o relato de Cirstiane, disse que "o que ouvimos aqui é deprimente".Respondendo a pergunta do presidente da CPI, senador Ramez Tebet (PMDB-MS), Cristiane revelou que, diante da sua reação, o juiz Beetowen teria ameaçado retirar de sua guarda seus dois outros filhos, Rafael, de cinco anos, e Júnior, de três anos.Para o senador Djalma Bessa (PFL-BA), houve ação conjunta entre o juiz e pessoas no hospital. Entre as pessoas envolvidas, Cristiane citou as assistentes sociais Favíola e Eliane, além da mulher que levou o papel para que ela assinasse, Ângela, que seria secretária do juiz.O senador Geraldo Althoff (PFL-SC) disse que sua atitude seria a mesma da médica que atendeu a depoente por entender que "o melhor lugar para a criança era no carinho e no afago de sua mãe". Cristiane informou que, ao ajudá-la, a médica foi processada por desobediência à Justiça. Althoff sugeriu que a CPI busque as informações necessárias no prontuário médico, onde, obrigatoriamente, todos os procedimentos do parto e momentos seguintes devem estar presentes.O relator da CPI leu ainda um documento, assinado por Beetowen, em que são dadas orientações para processos de adoção de crianças doadas pelas mães biológicas. "A minha sensação é que armou-se uma máquina para essas adoções irregulares", disse.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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