MÃE DENUNCIA QUE TRÊS FILHOS FORAM ENVIADOS À ITÁLIA

Da Redação | 11/05/1999, 00h00

Segunda mãe a depor no caso do tráfico internacional de crianças a partir de Jundiaí (SP), Maria Aparecida Salles contou aos senadores membros da Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga irregularidades no Poder Judiciário como teve três filhos seus retirados de casa e enviados à Itália.Vítima de um processo que começou com a intimação pelo juiz Luiz Beethoven Giffoni Ferreira para comparecer ao fórum de Jundiaí, Maria Aparecida disse não entender porque foi obrigada a entregar seus filhos Camila, de 9 anos, Rafael, 7, e Aline, 5, à Justiça. Segundo ela, os três freqüentavam a escola e não eram crianças de rua. Além disso, o pátrio-poder do pai das crianças, de quem Maria Aparecida está separada, não foi retirado.A depoente disse que pessoas no fórum a instruíram para que entregasse os meninos, pois, caso contrário, o juiz mandaria que buscassem as crianças e nunca mais permitiria que ela visse seus filhos. Na época, Maria Aparecida disse que estava grávida de quatro meses e, como até então confiava na Justiça, assinou papéis em que só constavam seus dados. "Nós fomos enganados", disse.Ela declarou que foi orientada pela advogada Simone a pedir a seu irmão que entrasse com processo de adoção de seus filhos. Porém, como revelou, a advogada perdeu prazos e mais tarde, sob o argumento que seu irmão era solteiro, disse que não receberia a guarda das crianças. "Os advogados do estado não têm vontade de atender as pessoas", criticou.Em um mês, em 1994, disse Maria Aparecida, suas crianças não estavam mais sob sua custódia, já tinham nomes diferentes e foram, então, mandadas para a Itália. "Não falo só em meu nome. São mais de 50 mães que pediram ajuda aos senhores", disse ela aos senadores.TRANSFORMAÇÃOMaria Aparecida relatou ainda que, com base em informações prestadas pelo juiz em um processo em São Paulo, soube que os filhos estão juntos, com uma mesma família na Itália. Ela disse também ter conhecimento do endereço das crianças naquele país. A depoente mostrou ainda uma foto de seus filhos, de 1995, que obteve junto ao fórum, em que eles aparecem com cabelos mais escuros, "transformados", segundo ela.Respondendo ao relator da CPI, senador Paulo Souto (PFL-BA), a depoente disse que foi submetida a forte pressão psicológica no fórum e que não tinha consciência que estava assinando a doação de seus filhos. Ao senador Djalma Bessa (PFL-BA), Maria Aparecida declarou que chegou a conseguir uma liminar, cassada dois dias mais tarde, suspendendo o processo. Maria Aparecida revelou ainda que nem ela nem seus advogados têm acesso ao processo de adoção de seus filhos, que é tratado como "segredo de Justiça".Diante de fotos, mostradas por Aparecida aos membros da CPI, o senador Maguito Vilela (PMDB-GO) destacou que as crianças apresentam-se bem vestidas e bem nutridas. "Eles querem crianças com educação. As crianças de rua continuam na rua", disse Maria Aparecida. O senador Geraldo Althoff (PFL-SC) disse que o fato de as crianças estarem na escola e com cartão de vacinação em dia mostra que a depoente é uma boa mãe.O senador José Agripino (PFL-RN) anunciou que, em reunião administrativa da CPI a ser realizada nesta quarta-feira (dia 12), irá apresentar requerimento de convocação do juiz Beethoven. "Não seria exagero falar em tráfico oficial de crianças. Não podemos deixar esses fatos impunes em hipótese alguma. Pelo amor de Deus!", disse Agripino.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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