Japoneses mostram que educar é parte da solução
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Várias vezes por ano, os moradores de Kamedakogyodanchi, em Niigata, participam da limpeza das ruas

Durante a Copa do Mundo deste ano, virou notícia o comportamento dos torcedores japoneses, que, após as partidas de sua seleção nacional, tratavam de recolher o lixo dentro dos estádios — todos os resíduos, não apenas os que eles mesmos criaram. Esse alto grau de conscientização não aconteceu de um dia para o outro, mas é reflexo do estágio avançado da sociedade japonesa em relação ao impacto que os seres humanos trazem para o planeta.

"No Japão, desde a tenra idade, as crianças aprendem que lixo tem que ser jogado no cesto ou levado para casa. Os bolsos ficam cheios de embalagens de balas, lenços de papel etc. É rotina alunos, trabalhadores, operários, donas de casa, comerciantes fazerem a limpeza da calçada, estacionamento e arredores, todas as manhãs", conta a brasileira Nill Tomie, que desde os anos 90 mora no país de seus ancestrais.

Colaboradora de blogs como IstoéJapão, Nill Tomie mora em Aichi, província central japonesa conhecida pelo alto grau de industrialização. "Moradores de conjuntos habitacionais administrados pelo governo são advertidos, na assinatura do contrato, de que deverão participar do mutirão periódico de limpeza, que envolve recolher todo o lixo abandonado nas dependências externas do condomínio, capinar matinhos e recolher folhas secas e galhos de árvores. O mutirão de limpeza é realizado não somente em conjuntos habitacionais do governo e prefeitura, como também em condomínios públicos, associação de bairro, associação comercial, nas fábricas."

Passos lentos

No Brasil, a conscientização caminha a passos lentos. Desde os anos 50, registra o professor Emílio Maciel Eigenheer no livro A História do Lixo — a limpeza urbana através dos tempos, lixeiras da cidade de São Paulo já traziam mensagens pedindo a participação da população. Nos anos 70, durante o regime militar, foi criado um personagem, o Sujismundo, para estrelar a campanha do governo federal "Povo desenvolvido é povo limpo". Iniciativas como essa, porém, tiveram pouco efeito prático — basta ver as ruas das grandes cidades brasileiras.

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Material educativo mostra às crianças como destinar o lixo: Japão investindo há décadas na conscientização

"É equivocado o pensamento de que limpeza urbana é um problema unicamente do poder público. Em muitos países, a população já compreendeu que o descarte e o tratamento do lixo também são responsabilidade de quem o produz. Garantir que ele chegue ao destino adequado é uma questão de cidadania e respeito ao futuro", defende o engenheiro Carlos Aguilar, especialista em resíduos sólidos.

Para o professor José Renato Baptista de Lima, da Escola Politécnica da USP, a educação é, de fato, o fator primordial. "Por mais surrado e repetido que seja esse mote, ele não deixa de ser o mais importante. Não no discurso de políticos em campanhas eleitorais, que estão muito mais preocupados em construir escolas do que dar ensino de qualidade, mas no dia a dia do cidadão, que, por meio da educação, se informa da relevância do problema e da importância de sua participação na solução."

A mestre em ciência ambiental Ana Maria Domingues, do Instituto Gea, vê grande evolução no conhecimento dos brasileiros sobre os benefícios da coleta seletiva e do problema do lixo mal disposto. "Quase todo mundo conhece o que é reciclável, como separar etc. Mas isso não basta. É preciso que as prefeituras coloquem à disposição dos cidadãos uma estrutura para a coleta desses materiais separados — como existe, por exemplo, para a coleta de lixo. É muito complicado querer que as pessoas separem seus resíduos recicláveis e ainda tenham que levar esse material em algum lugar, muitas vezes distante de suas casas, para que ele seja efetivamente reciclado."

Exemplo suíço

"A educação é algo que temos de trabalhar", resume o senador Cícero Lucena (PSDB-PB). Ele relatou na subcomissão uma experiência que viveu há quase 30 anos, quando ainda era apenas empresário e foi à Suíça conhecer a fábrica de um de seus fornecedores. Ao caminhar pelas ruas de Zurique, uma pessoa de seu grupo sacou o último cigarro da carteira, procurou uma lixeira próxima para jogá-la fora e, como não encontrou nenhuma, atirou o maço no chão. Um suíço que passava pegou a carteira e disse: "O senhor deixou cair". O brasileiro respondeu: "Eu não quero mais". E o suíço: "Nós também não queremos".

"Isso demonstra uma consciência! Quando uma criança estuda meio ambiente em uma escola, ela se preocupa e ensina, transmite noções de reciclagem inclusive para os pais. Se a criança estiver no carro e o pai jogar um pauzinho de picolé pela janela, o filho reclama", contou o senador.

Albino Rodrigues Alvarez, do Ipea, destaca que nas sociedades desenvolvidas a cobrança social é muito mais forte do que aqui. Os próprios vizinhos se cobram em relação ao lixo. Mas ele teme que, no Brasil, só isso ainda não baste. "É capaz de não funcionar. Aqui tendemos a ter uma lei, uma imposição, uma multa. É um mecanismo mais lento. Não funciona tão rapidamente, porque a pessoa escapa desse tipo de vigilância social, que simplifica o processo", lamenta o especialista.

No Brasil, completa Alvarez, até mesmo a cobrança de uma taxa de lixo encontra reação negativa forte dos moradores na maioria dos municípios, enquanto em países como a Alemanha se consegue convencer as pessoas a comprar sacos plásticos especiais para descartar recicláveis, em cujo custo já está embutida a taxa que vai financiar a coleta.

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