Como desmontar essa máquina
Divulgação/Instituto Cidade Amiga
No Brasil, 26 milhões de toneladas de alimentos vão para o lixo anualmente, como resultado de despreparo e desleixo
Senadores fazem ajustes em projeto que estabelece novo modelo para colheita, manuseio, embalagem, transporte, armazenamento e venda de alimentos, além de criar regras para facilitar doação de sobras

O desperdício de alimentos é usualmente classificado por parlamentares, estudiosos e líderes de opinião como crime, mas sempre em sentido metafórico. Afinal, não é ato tipificado em código legal, embora signifique a deterioração de nutrientes, quando ainda há pessoas passando fome, e a dilapidação de insumos agrícolas e recursos ambientais.

Desperdiçar alimentos, portanto, não gera multa e tampouco leva à prisão. A culpa é de quem, em particular, se, de praxe, decorre do encadeamento de ações compartilhado por toda a sociedade?

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) alerta: 30% de tudo o que é produzido no mundo perdem-se em alguma parte do caminho entre as mãos de quem planta e as bocas de quem come (ou quer comer). Isso corresponde a 1,3 bilhão de toneladas. Só no Brasil, 26 milhões de toneladas ficam no meio do caminho em vez de chegarem ao prato dos mais de 7 milhões de famintos (veja infográfico na página 24).

O conhecimento técnico para minimizar essas perdas ao longo do processo de plantio, colheita, encaixotamento, transporte, armazenamento e venda já existe. De modo idêntico, estão claras as principais mudanças de hábitos exigidas dos moradores das cidades: planejamento de compras, maior cuidado na escolha e manuseio de frutas e hortaliças e incremento da disciplina na conservação dos produtos. O problema, conforme o consultor do Senado Marcus Peixoto, é a falta de informação e capacitação das pessoas envolvidas.

“É preciso instituir mecanismos de políticas públicas e campanhas educativas para conscientizar a sociedade de que esse problema afeta a todos, inclusive o consumidor, que acaba pagando mais caro para compensar a perda que aconteceu lá no campo”, prega o consultor.

A economia doméstica arca, similarmente, com o custo provocado pelo desmazelo de parte dos mercados. É comum que estoques mal programados de frutas apodreçam à espera de descontos.

Não por outro motivo, debate-se no Senado projeto que institui a Política Nacional de Combate ao Desperdício e à Perda de Alimentos. A proposta surgiu, na forma de emenda substitutiva, como resultado de audiências públicas na Comissão de Agricultura (CRA) para debater três projetos de lei apresentados em 2015: o PLS 672, do senador Ataídes Oliveira (PSDB-​TO); o PLS 675, da senadora licenciada e secretária municipal da Família e da Assistência Social de Aracaju, Maria do Carmo Alves (DEM-SE); e o PLS 738, do senador Jorge Viana (PT-AC).

“Somos caracterizados pelo primarismo. O problema é generalizado”, resume o relator dos projetos, senador Lasier Martins (PDT-RS).

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