Five Eyes: espionagem moderna começou há quase um século

A modernização do negócio da espionagem tem um marco inicial definido: a assinatura, em março de 1946, do Tratado de Segurança entre os Estados Unidos e o Reino Unido. O acordo formalizou a Carta do Atlântico, assinada em 1941, antes da entrada americana na 2ª Guerra Mundial, para a decodificação de mensagens alemãs e japonesas e a partilha de informações secretas entre os Estados Unidos e o Reino Unido. Restrito inicialmente aos dois países, o sistema posteriormente agregou Canadá, Austrália e Nova Zelândia - formando os Cinco Olhos ou Five Eyes -, unidos pela língua inglesa e pelo objetivo de antecipar os movimentos dos inimigos.

Sede do MI6, o serviço secreto britânico: membros do Five Eyes compartilham informações (Foto: Duncan Harris)

As organizações de cada país que participam do sistema, sob o comando da NSA, são o GCHQ (Government Communications Headquarters), do Reino Unido, o CSEC (Communications Security Establishment Canada), do Canadá, o ASD (Australian Signals Directorate), da Austrália, e o GCSB (Government Communications Security Bureau), da Nova Zelândia. Juntos, eles criaram o Echelon, uma rede de vigilância global e de espionagem.

Como em tudo que diz respeito à espionagem, à exceção das revelações de Snowden, baseadas em documentos subtraídos da NSA, há poucos indícios concretos e documentados da atuação dos Five Eyes. Segundo investigação feita pelo Parlamento Europeu em 2001, por exemplo, o Echelon foi usado pelos EUA para colaborar com a empresa americana Raytheon na concorrência lançada pelo governo brasileiro por serviços e equipamentos para o Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam. Os americanos venceram a disputa.

Em março de 2014, a revista Der Spiegel publicou documentos mostrando que, por meio do CGHQ, e sob o comando da NSA, os sistemas de satélite da Alemanha se tornaram alvo de espionagem. Segundo o presidente da Cloud Security Alliance Brasil (CSA Brasil), Paulo Pagliusi, ouvido pela CPI da Espionagem, os Five Eyes monitoram chamadas telefônicas e de fax, transmissões de rádio e os acessos à internet em todo o mundo.

Mercado

Atentados foram evitados; terroristas, localizados e presos; e inúmeros outros objetivos dos Five Eyes, alcançados como resultado de sua associação, afirmam ex-agentes secretos, muitos deles sob anonimato, ouvidos por grandes veículos da mídia mundial. Para eles, as informações dos Estados Unidos são tão valiosas que não há indignação, reação ou argumentos em favor do direito à privacidade que convençam britânicos, canadenses, australianos e neozelandeses a renunciarem à parceria com os EUA.

A espionagem cibernética cresce no pós-guerra e se impõe até na ficção: que seria de James Bond (D) sem Q, o hacker do MI6? (Foto: Divulgação)

"Informações são como ouro. Se você não as tem, não há como sobreviver", disse à agência Associated Press o ex-chefe da agência de espionagem estrangeira da Nova Zelândia Bruce Ferguson. Nesse "mercado", a informação é a moeda, e a confiança recíproca, a despeito de eventuais desconfianças mútuas, deve ser o contrato.

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