Desde o século 16, há relatos sobre a calamidade na região
FOTO: ORLANDO BRITO
Castigadas por períodos prolongados de seca, famílias nordestinas migraram para o sul do país no século 20

O primeiro documento português que relata a seca no Nordeste é de 1552, de acordo com o historiador Marco Antonio Villa, no livro Vida e Morte no Sertão. De 1580 a 1583, os registros mostram prejuízos da seca aos engenhos de cana-de-açúcar e relatam o deslocamento para o sul de cerca de 5 mil índios em busca de comida.

A seca de 1877 foi a mais dramática de que se tem notícia. Após um período de 30 anos sem estiagem, a falta de chuvas vitimou quase metade da população que vivia no sertão, segundo o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) José Nilson Bezerra Campos, no artigo "Vulnerabilidade hidrológica do semiárido às secas".

O episódio fez com que o imperador dom Pedro II criasse uma comissão para propor soluções para a seca. Pouco foi feito, no entanto. Em 1909, já no regime republicano, foi criada a Inspetoria de Obras Contra as Secas (Iocs), que está na origem do atual Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs).

Até a implantação da Sudene, em 1959 pelo economista Celso Furtado, durante o governo de Juscelino Kubitschek, o Iocs era responsável pela construção de açudes e usinas hidrelétricas e o único órgão designado a socorrer as populações flageladas pelas secas cíclicas que assolam a região.

Apesar da criação do Iocs, as estiagens adentraram o século 20, produzindo tristes estatísticas. Em 1915, o governo do Ceará instalou uma espécie de "campo de concentração" às margens das cidades para impedir a entrada de retirantes, provocando grande número de mortes por causa da fome e das péssimas condições sanitárias. A seca desse ano foi o mote para o romance de estreia de Rachel de Queiroz, O Quinze.

O drama humano provocado pelo clima inóspito da região também foi explorado por outros autores em grandes obras da literatura brasileira, como Graciliano Ramos, no romance Vidas Secas, e João Cabral de Melo Neto, no poema Morte e Vida Severina. Ambos foram adaptados para o cinema e para a televisão.

Em 1932, a dura realidade do sertão nordestino vai tornar conhecida em todo o Brasil outra mazela: a "indústria da seca". Poderosos da região utilizavam o argumento da seca para conseguir benefícios governamentais, como mais crédito e perdão de dívidas. Não raro foram construídos poços e cisternas nas terras dos latifundiários. O historiador Marco Antonio Villa afirma que, em 1998, dos 8 mil açudes existentes no Ceará, somente 95 eram públicos. "E o pior é que os 7.905 restantes foram quase todos construídos com dinheiro público."

Em 1979, repete-se o desastre. A seca durou quase cinco anos. Assim como aconteceu com os índios, no século 16, o século 20 assistiu a um grande êxodo de nordestinos em direção ao sul do país, fugindo da seca e em busca de melhores condições de subsistência.

Mais crítico que o movimento populacional pelo país é a ameaça à vida representada pela seca. Marco Antonio Villa estima que, em 150 anos, de 1825 a 1983, morreram no Nordeste, em decorrência da seca, cerca de 3 milhões de pessoas.

"No semiárido, o fracasso do Estado tornou-se mais transparente e cruel devido à sucessão de secas e à grande mortandade", escreve.

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