Chuvas e estiagens mais intensas
Os efeitos no clima em consequência do aquecimento global esperados para os próximos 25 anos já são observados agora em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. O alerta é de José Marengo, doutor em Meteorologia do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Nacionais (Cenadim) e membro desde 1996 do IPCC

O último relatório do IPCC mostra que alguns impactos das mudanças climáticas previstos para o futuro já estão aí. O que acontece?

Os modelos projetam que essas situações devem ficar piores no futuro, mas achávamos que esses fenômenos só seriam observados em 2030 ou 2040, mas já estão ocorrendo extremos de chuvas mais frequentes e intensos, nos últimos 50 e 60 anos, em várias regiões do mundo, como o sudeste da América do Sul, que inclui São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires. Em consequência, cresce a quantidade de desastres naturais. Esses extremos de chuva são resultado do aumento de concentração dos gases de efeito estufa e da urbanização. Onde antes havia a Mata Atlântica, hoje há concreto. Além disso, muitas vezes, como em São Paulo, chove sobre a cidade, mas não sobre a região da Cantareira, onde deveria chover.

 

FOTO: ASCOM ABC
“O clima está mudando. Não tem como reverter o aquecimento global. A única forma é se adaptar”

Qual a relação entre mudanças climáticas e a frequência de chuvas?

As enchentes registradas no começo deste ano em Rondônia e a falta de chuva no Sudeste são, em geral, fenômenos meteorológicos associados a causas naturais. O problema é que eles estão acontecendo mais frequentemente. Antes eram tratados como eventos de uma vez a cada cem anos ou de uma vez a cada milênio. Ainda que a causa individual dos fenômenos sejam processos naturais, sobre os quais o homem não tem controle, é possível afirmar que eles estão mudando de comportamento. É difícil atribuir a seca do Sudeste à mudança climática, porque a seca é um fenômeno de curta duração e mudança climática é um processo de longo prazo. A gente não tem feito no Brasil esse tipo de estudo para saber qual o impacto das mudanças climáticas na seca na Região Sudeste. Estamos estudando as causas meteorológicas. Deveria ter chovido bastante em janeiro e em fevereiro de 2014, mas choveu quase 80% a menos.

A incidência e a intensidade das secas na região do semiárido nordestino também aumentaram?

O clima está mudando. Não tem como reverter o aquecimento global. A única forma é se adaptar. Se a população do Nordeste não faz isso e as projeções mostram que a região do semiárido pode passar para árido, podemos ter um problema muito maior. Podemos falar de um processo de desertificação, por exemplo.

O relatório do IPCC menciona que é preciso a sociedade se adaptar à elevação da temperatura. Como essa adaptação acontece no Brasil?

Depende do setor. A Embrapa está desenvolvendo há mais de dez anos variedades de culturas mais resistentes às secas e às altas temperaturas. Outra forma de adaptação é a construção de cisternas no Nordeste. Algo que tem funcionado em outros países é a transposição dos rios.

A população está esclarecida para os riscos de uma possível falta de água?

Em 2001 [durante a crise energética causada pela redução do nível dos reservatórios das hidrelétricas por falta de chuvas] tivemos a mesma discussão, até que começou a chover e todo mundo esqueceu. Temos todas as evidências de que algo está mudando, mas nada foi feito depois do que se aprendeu em 2001. Se você toca os bolsos das pessoas, todo mundo reage. Essa é a forma de adaptação mais rápida. Foi o que aconteceu em 2001. Todo mundo queria pagar menos e pouparam 20% de energia. Participei de reuniões em 2001 e agora, em 2014. Quase sempre voltamos à mesma situação. Não é surpresa. Já aconteceu antes. Este ano está sendo pior, porque a estiagem está mais longa. O clima é o deflagrador de todo tipo de problemas e, se isso não se resolve, a gente pode ter problemas sociais.

A matriz energética do Brasil depende muito da água. O que pode acontecer com a geração de energia elétrica se os períodos de estiagem ficarem mais intensos?

Sempre se pensou o Brasil como um país com muita água, mas estamos vendo áreas onde pode haver redução de chuvas. Os grupos que trabalham com segurança energética devem tentar fazer combinações entre energias. Uma alternativa é o uso da energia eólica. Mas o Brasil é muito grande, com megacidades, e as energias solar e eólica não conseguem satisfazer toda a demanda. Há de haver uma combinação de todos os tipos de energia. O ideal é buscar fontes alternativas de energia e não depender exclusivamente de água ou de petróleo.

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