Estilo de vida saudável e exames periódicos evitam doenças renais, dizem especialistas

Augusto Castro | 09/03/2017, 09h31 - ATUALIZADO EM 09/03/2017, 20h06

Em sessão especial nesta quinta-feira (9), o Plenário comemora o Dia Mundial do Rim, que este ano tem como tema ‘Doença Renal e Obesidade - estilo de vida saudável. A iniciativa faz parte de uma campanha internacional encabeçada pela Sociedade Internacional de Nefrologia e coordenada no Brasil pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).

O senador Eduardo Amorim (PSDB-SE) é o autor do requerimento para realização da sessão especial. Ele explica o tema da campanha deste ano.

— A obesidade está muito relacionada à hipertensão arterial e a hipertensão é com certeza um dos principais fatores para que a pessoa desenvolva uma insuficiência renal crônica. A campanha deste ano foca na obesidade para chamar a atenção para a importância de um estilo de vida saudável, para que não se tenha uma vida sedentária, para que se tenha uma alimentação saudável. É o segundo ano que o Senado traz para dentro do Plenário essa discussão junto com a Sociedade Brasileira de Nefrologia — disse o senador.

Segundo Amorim, mais de 120 mil brasileiros fazem hemodiálise no país. De acordo com o senador, algumas das causas da insuficiência renal são a hipertensão e o uso excessivo de medicamentos anti-inflamatórios, vendidos comumente sem controle. Esse tipo de medicamento, se consumido rotineiramente ou em excesso, pode levar à lesão renal e insuficiência renal crônica. A prevenção é o melhor, o mais barato, o mais eficiente e menos sofrido de todos os remédios, diz Eduardo Amorim.

— A prevenção é o melhor de todos os remédios, mas tem efeito lento e gradativo. Precisamos de uma política preventiva mais eficiente e mais capilarizada pelo país. Muitas vezes o cidadão é hipertenso, não sabe que é hipertenso e, alguns anos depois, ele acaba desenvolvendo uma doença renal crônica, uma insuficiência renal porque essa hipertensão destruiu parte do rim — afirma.

A campanha anual tem como objetivo alertar a população mundial para os cuidados com os rins, as principais doenças que o atingem e falar sobre prevenção e tratamento, principalmente sobre a importância do diagnóstico precoce da chamada doença renal crônica (DRC), que é a perda progressiva, e muitas vezes irreversível, da função dos rins, o que pode fazer o paciente necessitar de hemodiálise ou transplante.

Hemodiálise é um procedimento no qual uma máquina faz o trabalho do rim doente, ou seja, limpar e filtrar o sangue, eliminando resíduos prejudiciais à saúde, controlando a pressão arterial e mantendo o equilíbrio de sódio, potássio, ureia e creatinina, entre outros sais e minerais.

O nefrologista, especialista em rim

O rim é um órgão vital para o equilíbrio de nossa saúde. Do formato de um grão de feijão gigante (ou do tamanho de um punho humano fechado, aproximadamente), é quase sempre duplo, mas podemos viver com apenas um. É o filtro do corpo humano e precisa de muita água.

O especialista em rins é chamado de médico nefrologista. A nefrologia se dedica ao diagnóstico e tratamento clínico das doenças do sistema urinário, principalmente relacionadas ao rim. No Brasil, o tempo para formar um nefrologista é de seis anos do curso de medicina mais dois anos de residência ou estágio em clínica, além de mais dois anos de residência ou estágio em nefrologia.

A doutora Isadora Calvo, 31 anos, é médica residente em Nefrologia do Hospital Regional de Sobradinho, cidade do Distrito Federal que fica a cerca de 20 quilômetros de Brasília. Ela explica que beber muita água e ter a urina de cor clara não é garantia de rins saudáveis, pois muitas das doenças que atingem o órgão são silenciosas, ou seja, os sintomas são, na maioria das vezes, tardios. Ela informa que os problemas mais comuns nos rins são consequências de diabetes ou pressão alta mal controlada e alerta para a necessidade de exames de sangue e urina periódicos, pelo menos uma vez ao ano, para que qualquer problema seja detectado com antecedência.

— O que a gente vê muito é o paciente já chegar para fazer hemodiálise com pouco tempo de sintomas, mas já chega em estágio avançadíssimo, é muito comum. Quando chega para a gente, muitas vezes não tem o que fazer mais. Aqui no hospital a gente atende uma população de classe mais baixa, de escolaridade mais baixa e de acesso ruim à saúde — diz.

O centro de hemodiálise do Hospital Regional de Sobradinho atende atualmente 60 pacientes durante dia e noite em 13 máquinas de hemodiálise, uma exclusiva para a UTI. Geralmente são três sessões por semana, com duração média de quatro horas, mas o número de casos novos de doentes renais supera em muito a capacidade de atendimento, realidade que ela acredita estar presente em muitos hospitais públicos.

— O paciente em hemodiálise é esquecido, ele é preterido em relação aos outros pacientes. Esses pacientes precisam de exames mensais, trimestrais e semestrais. A gente só está conseguindo fazer o básico do básico, os exames mais baratos. Agora, exames mais caros, mais complexos, que avaliam as consequências da doença renal, como o exame de anemia, a gente não tem como fazer e aí não conseguimos avaliar direito o paciente. Faltam também medicamentos e profissionais — afirma Isadora Calvo, lembrando que a doença renal crônica não acomete apenas idosos, mas também muitos jovens em idade produtiva.

Outro problema lembrado pelo senador Eduardo Amorim é a defasagem em quanto o Sistema Único de Saúde (SUS) paga por sessão de hemodiálise. O valor seria historicamente abaixo dos reais custos do tratamento, o que estaria levando muitas clínicas pelo país a fecharem as portas.

— A defasagem no SUS continua, o que tem levado ao fechamento de várias e várias clínicas Brasil afora. Veja que contradição, aumenta o número de pacientes renais crônicos, que precisam de hemodiálise, e muitas clínicas estão fechando. Os leitos de hemodiálise são insuficientes. O que o SUS paga, dizem os especialistas, não é suficiente para cobrir os custos — registra o senador.

Este ano, o foco da campanha do Dia Mundial do Rim é na obesidade, situação que pode causar ou agravar problemas renais. A principal função dos rins é como a de um filtro mesmo, eles integram os sistemas excretor e osmorregulador do corpo humano e filtram e excretam dejetos do sistema sanguíneo. Essa glândula vermelho-escuro é conhecida na medicina tradicional chinesa como o órgão que guarda um tipo de energia vital essencial para os humanos, herdada do pai e da mãe.

Regras de prevenção

A Sociedade Brasileira de Nefrologia enumera oito "regras de ouro" que qualquer pessoa deve seguir para se prevenir de doenças renais: praticar atividade física regularmente; alimentar-se de maneira saudável e evitar o sobrepeso; hidratar-se com água e líquidos de maneira regular; controlar o nível de açúcar no sangue, para evitar o diabetes; acompanhar a pressão arterial; consultar um médico periodicamente, de preferência um nefrologista (médico especialista em sistema urinário); evitar fumar e consumir bebidas alcoólicas e não tomar remédios sem orientação médica.

A SBN alerta para o fato de que a obesidade, além de acarretar inúmeros outros problemas de saúde, é também um fator de risco para a doença renal crônica e pode agravar outras doenças que prejudicam os rins, como o diabetes e a hipertensão arterial.

A entidade também chama atenção para os principais fatores de risco que obrigam o cidadão a ter ainda mais cuidado com seus rins: pressão alta; diabetes; sobrepeso ou obesidade; idade superior a 50 anos; histórico de doenças renais na família; uso de remédios sem orientação médica; tabagismo e doenças cardiovasculares.

O doutor Rafael Bagustti, 42 anos, é diretor clínico e nefrologista da Clínica de Doenças Renais de Brasília, criada em 1980. Atualmente, a clínica privada atende cerca de 150 pacientes que fazem hemodiálise, de duas a seis sessões semanais. Ele explica que a obesidade está diretamente relacionada à qualidade de vida, ao estilo de vida que a pessoa tem. E a obesidade, assim como a hipertensão e o diabetes, aumenta a filtração realizada pelos rins, causando envelhecimento precoce do órgão. O médico também diz que prevenção é uma das melhores soluções.

— Hoje já está provado que o custo-benefício da prevenção é muito melhor. Se conseguirmos uma dieta saudável, com baixo teor de açúcar, baixo teor de caloria e baixo teor de sódio, teremos uma população menos obesa, menos diabética, menos hipertensa e menos portadora de doenças renais crônicas. A prevenção deve começar na infância. Seria muito importante se a gente conseguisse colocar em todas as escolas uma aferição básica de pressão arterial porque, em uma criança, a hipertensão é um sinal claro que o rim pode estar afetado. O check-up anual é muito importante desde a juventude — avalia.

O médico lembra ainda que vários outros tipos de doenças podem atingir os rins, como doença renal aguda, infecções do trato urinário, cálculo renal, rins policísticos, lúpus, artrites que acometem o rim e muitas outras. Daí a necessidade de uma vida saudável, com ingestão de água durante todo o dia, alimentação saudável e atividades físicas periódicas, além de exames anuais de rotina.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)