Terras raras: reservas brasileiras atraem atenção do mundo, mas faltam tecnologia e garantias ambientais
As terras-raras são um grupo de 17 elementos químicos considerados estratégicos para vários setores da indústria moderna, da produção de carros elétricos e drones de guerra à construção de data centers.
O Brasil detém 23% das reservas do planeta, atrás apenas da China. No entanto, o país ainda não tem a infraestrutura para extrair e aproveitar todo potencial dessas riquezas naturais, o que preocupa especialistas. O impacto ambiental da extração desses minérios também é um desafio.

Transcrição
Não sei se você percebeu, mas, de uns tempos pra cá, as chamadas terras-raras saíram dos cantos da tabela periódica para ocupar o centro dos noticiários. Mas, afinal, o que são terras raras? E por que tanto interesse nelas?
Para começar, elas não são terras, mas 17 elementos químicos que têm a capacidade de potencializar as propriedades de outros elementos. Isso faz com que essa turma de nome estranho, ao lado dos chamados minerais críticos, como lítio e cobre, seja considerada estratégica para vários setores da indústria moderna, da produção de carros elétricos e drones de guerra à construção de data centers. De acordo com a pesquisadora do Serviço Geológico do Brasil, Lucy Chemale (LUCÍ KEMALE), isso acontece porque os elementos de terras-raras permitiram à indústria de alta tecnologia produzir equipamentos menores e mais eficientes.
Eu cito alguns exemplos. O uso dos elementos neodímio, praseodímio, disprósio, térbio, eles são usados nos ímãs permanentes, e os ímãs permanentes são utilizados em diversos produtos manufaturados atuais, que vão desde turbinas eólicas, celulares, televisores, equipamentos eletroeletrônicos... E o gadolínio, por exemplo, usado como contraste para a realização dos exames de ressonância magnética.
As aplicações são quase infinitas. E, ao contrário do que se pensava inicialmente, essas terras também não são raras. Estima-se que existam hoje cerca de 115 milhões de toneladas de terras-raras no planeta, 44 milhões delas na China. E, atrás da China… sim, o Brasil, que detém 23% das reservas do planeta. E, em regiões dos estados de Minas Gerais, Goiás, Bahia e São Paulo já existem empresas estrangeiras fazendo pesquisa exploratória.
O problema é que o Brasil ainda não tem a infraestrutura necessária para extrair e aproveitar todo potencial dessas riquezas naturais, o que vem preocupando os especialistas do setor. Em audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, em setembro de 2025, eles cobraram investimento em pesquisa, para que o país não se torne dependente dos interesses estrangeiros. Foi o que destacou, por exemplo, o engenheiro Ysrael Marrero Vera, pesquisador do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem).
Então, é isso: se o Brasil quiser competir em minerais estratégicos precisa elevar investimentos, na casa dos milhões para centenas de milhões, como a gente tá vendo. O Brasil pode e deve desenvolver a cadeia completa de terras-raras, desde o minério, passando pelos óxidos separados, até os ímãs.
Outra preocupação recorrente quando o assunto são terras- raras é o impacto ambiental envolvido na exploração. Embora esses minerais sejam essenciais para a transição energética, sua extração envolve grandes movimentações de terra, com utilização de elementos químicos e de grandes quantidades de água. E, ao final, o aproveitamento do material costuma ser baixo. A pesquisadora Lucy Chemale (LUCÍ KEMALE) explica melhor.
Então, os teores em que nós estamos falando em termos de minérios de terras-raras, ele está normalmente abaixo de 1%. O que significa isso? Que você precisa extrair, de 100 quilos, você consegue, se tiver 1%, você consegue extrair 1 quilo de terras-raras. Então, é uma indústria que precisa movimentar bastante para extrair pouco.
De olho em toda a oferta desse material no Brasil, vamos saber na próxima parte da série quais propostas e ações do Senado rumo à construção de um marco legal para as terras-raras.
Da Rádio Senado, Raíssa Abreu.

