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Nelson Oliveira
Publicado em 8/5/2020

Brasília foi cantada profeticamente em versos desde antes de nascer. Era a Utopia, objeto imaginário. Durante sua construção, e nos anos seguintes, foi exposta às lentes que buscavam flagrar o seu erguimento, sua epopeia no altiplano, sua monumentalidade, sua infância aventureira e cívica. Nessa fase também lhe compuseram poemas — uns épicos, outros líricos e alguns até satíricos. Mais tarde, já consolidada, passou a ser objeto de culto e contemplação e de renovada inspiração poética. E, evidentemente, de uma ânsia por cliques que a registram e a analisam, releem seu urbanismo, sua arquitetura e revalorizam sua natureza, no princípio um elemento a ser meramente dominado pelos desbravadores e construtores.

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A seguir, um apanhado de poemas, letras de música e hinos, compostos por brasilienses ou não.

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



Oh! A Cidade que irá surgir
bela, sobre o planalto, além dos horizontes.
A que não foi preciso descobrir,
a que o olhar divisou pela encosta dos montes.
Cidade sem o lenço azul das caravelas,
cidade do porvir.
Longe do mar, cidade perto das estrelas…
Tu não terás o afago de ondas, a carícia
voluptuosa da espuma contra o cais;
nem um colar chorando luzes sobre as águas
numa circunferência, e ainda mais… ainda mais
a praia, a areia de ouro, a banhista, a delícia
da alameda que fica junto ao cais.
Mas eu te amo assim mesmo, em teu futuro,
amo o trabalho humano que há de levantar
sobre os teus montes, edifícios de ouro
e a igreja branca onde talvez eu vá rezar:
Amo a glória do teu futuro!
Mas quero muito mais a saudade que fica
desse arraial onde hoje dormem caravanas
de montanhas e de pobres cabanas
e tendas humildes e pequeninas.
Ficas longe do mar, mas ficas perto
do céu, de um claro céu que há de estar sempre aberto
às nossas mágoas e aos nossos cantos, ao vento.
Que o homem futuro possa ter um sentimento,
adorar as tuas paisagens belas,
e possa, pela coragem, merecê-las.
Cidade que fugiu das ondas e das praias
para ficar vizinha das estrelas.

— Osvaldo Orico —
Cidade do Planalto, do livro Dança dos Pirilampos, 1923

FOTO: ARQUIVO PÚBLICO



Agora e aqui é a Encruzilhada Tempo-Espaço,
Caminho que vem do Passado e vai ao Futuro;
caminho do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste;
caminho de ao longo dos séculos,
caminho de ao longo do mundo:
— agora e aqui todos se cruzam
pelo sinal da Santa Cruz.
Ave Cruz; tanta cruz pelos caminhos,
através tanto tempo e tanto espaço;

Feita do fluxo e refluxo das forças que dão o poder,
centrípeta para tornar-se centrífuga,
BRASÍLIA, é a tua Cruz da Quarta Dimensão, e Tetragrama
do Milagre Novíssimo que és tu;
a que dirá “Presente!”, impávida, ao chamado
do fasto e do nefasto; a que é o Marco Zero
das vias todas, da mais ínvia à mais viável;
o ímã para a limalha de aço do trabalho;
a ponta do compasso autor da Equidistância;
BRASÍLIA, a tua Cruz que é Presépio também
e a cujos pés a ti, no teu Natal, rogamos:
— Barca de esperança,
Carta de marear.
Rosa-dos-ventos,
Portal do sertão,
Corda de arco,
Farpa de flecha,
Bateia de garimpo,
Diadema de esmeraldas,
Crisol de raças,
Ara de liberdade,
— Vive por nós!

— Guilherme de Almeida —
Prece Natalícia a Brasília, 1960, fragmentos
(Lida no dia da inauguração, pelo autor, defronte ao marco histórico da cidade, na presença do presidente Juscelino Kubitschek)

FOTO: ARQUIVO PÚBLICO DO DF



Vou-me embora pra Brasília,
sol nascido em chão agreste.
Como quem vai para uma ilha.
A esperança mora a Oeste.

Vou-me embora pra Brasília,
por determinação celeste.

— Cassiano Ricardo —
Toada pra se ir a Brasília

FOTO: ARQUIVO PÚBLICO DO DF



No princípio era o ermo
Eram antigas solidões sem mágoa.
O altiplano, o infinito descampado
No princípio era o agreste:
O céu azul, a terra vermelho-pungente
E o verde triste do cerrado.
Eram antigas solidões banhadas
De mansos rios inocentes
Por entre as matas recortadas.
Não havia ninguém. A solidão
Mais parecia um povo inexistente
Dizendo coisas sobre nada.
Sim, os campos sem alma
Pareciam falar, e a voz que vinha
Das grandes extensões, dos fundões crepusculares
Nem parecia mais ouvir os passos
Dos velhos bandeirantes, os rudes pioneiros
Que, em busca de ouro e diamantes,
Ecoando as quebradas com o tiro de suas armas,
A tristeza de seus gritos e o tropel
De sua violência contra o índio, estendiam
As fronteiras da pátria muito além do limite dos tratados.
- Fernão Dias, Anhanguera, Borba Gato,
Vós fostes os heróis das primeiras marchas para o oeste,
Da conquista do agreste
E da grande planície ensimesmada!
Mas passastes. E da confluência
Das três grandes bacias
Dos três gigantes milenares:
Amazonas, São Francisco, Rio da Prata ;
Do novo teto do mundo, do planalto iluminado
Partiram também as velhas tribos malferidas
E as feras aterradas.
E só ficaram as solidões sem mágoa
O sem-termo, o infinito descampado
Onde, nos campos gerais do fim do dia
Se ouvia o grito da perdiz
A que respondia nos estirões de mata à beira dos rios
O pio melancólico do jaó.
E vinha a noite. Nas campinas celestes
Rebrilhavam mais próximas as estrelas
E o Cruzeiro do Sul resplandecente
Parecia destinado
A ser plantado em terra brasileira:
A Grande Cruz alçada
Sobre a noturna mata do cerrado
Para abençoar o novo bandeirante
O desbravador ousado
O ser de conquista
O Homem!

— Vinicius de Moraes —
Sinfonia da Alvorada, parte I

FOTO: ARQUIVO PÚBLICO DO DF



Contraditória
rosa
explosiva.
De tuas impurezas,
de tuas asperezas,
rosa queremos-te exata.
No altiplano de nossas esperanças,
rosa-dos-homens
construímos-te futura.

— Anderson Braga Horta —
Altiplano, fragmento

FOTO: ARQUIVO PÚBLICO DO DF



Com Brasília no coração
“Epopeia surgiu do chão
O candango sorri feliz
Símbolo da força de um país.

— Geir Nuffer Campos —
Hino oficial de Brasília, fragmento



Desperta o gigante brasileiro
desperta e proclama ao mundo inteiro
num brado de orgulho e confiança:
nasceu a linda Brasília
a “Capital da Esperança”

— Capitão Furtado —
Brasília, Capital da Esperança

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



Foi num crepúsculo fosco
e bobo de sol e pinga
que do alto de Taguatinga
Vi a Mênfis de Dom Bosco.
Daqui pra diante me enrosco
em trevos, siglas e táxis
que o santo de Castelnuovo
previu, mas noutras paragens.

— Domingos Carvalho da Silva —
Um Violeiro em Brasília

FOTO: RODRIGO VIANA/SENADO FEDERAL



Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões.
Aponta contra os chapadões
Meu nariz
Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento
No planalto central do país

— Caetano Veloso —
Tropicália

FOTOS: ARQUIVO PÚBLICO DO DF



Baiano não nasce burro, gaúcho é o rei das coxilhas
Paulista ninguém contesta, é um brasileiro que brilha
Quero ver cabra de peito pra fazer outra Brasília

— Teddy Vieira e Lourival dos Santos —
Pagode em Brasília

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



Por toda a plataforma
Toda plataforma
Toda a plataforma
Você não vê a torre

— Fê Lemos, Flávio Lemos, André Pretorius, Renato Russo —
Música Urbana

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



E João não conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília, com o diabo ter.
Ele queria era falar pro presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer

— Renato Russo —
Faroeste Caboclo

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



Se encontraram então no Parque da Cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de camelo (…)
Ela falava coisas sobre o Planalto Central
Também magia e meditação
E o Eduardo ainda tava no esquema escola-cinema-clube-televisão

— Renato Russo —
Eduardo e Mônica

FOTO: RODRIGO VIANA/SENADO FEDERAL



Esse imenso, desmedido amor
Vai além que seja o que for.
Passa mais além do
Céu de Brasília
Traço do arquiteto.
Gosto tanto dela assim

— Djavan e Caetano Veloso —
Linha do Equador, 1993

FOTO: REPRODUÇÃO



Um telefone é muito pouco
Pra quem ama como louco
E mora no plano piloto

— Renato Matos —
Um telefone é muito pouco

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



Se teu amor foi
Hipocrisia!
Adeus, Brasília
Vou morrer de saudade!
Se teu amor foi
Hipocrisia!
Adeus, Brasília
Vou pra outra cidade

— Alceu Valença —
Te amo, Brasília, 1990

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



Mas da próxima vez que eu for a Brasília
Eu trago uma flor do cerrado pra você

— Caetano Veloso —
Flor do Cerrado, 1974

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



No centro de um planalto vazio
Como se fosse em qualquer lugar
Como se a vida fosse um perigo
Como se houvesse faca no ar.

— Oswaldo Montenegro —
Léo e Bia

FOTO: RODRIGO VIANA/SENADO FEDERAL



No asfalto, feito miragem,
Brilha um rio fervente.
E o que se vê entre os blocos
É Calango virando gente

— Humberto Firmo —

FOTO: REPRODUÇÃO/INVADINDO A CENA 2017



Vibra o centro da Terra brilha a estrela mais linda
Essa magia vem do encontro dos nossos ímas
E me desequilibra mas não me desafina
Direto de Brasília, Ceilândia e Taguatinga
A mestre raizêra cura com sucupira
Meu velho pai me ensina balanço contamina
Timbrera truveria antiga poesia

— Ellen Oléria e Emicida —
Mudernage

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



No dia em que a torre caiu
O Lago nem sequer se incomodou
No dia em que a torre caiu
O lago nem sequer se incomodou.
Bem que eu queria colocar tudo nos Eixos
E a cidade bateu asas
Bateu asas e voou.
Quem tem L vai ao dois
Quem tem W vai ao três
Quem comeu pastel de queijo
Deixa o caldo pra depois.
Se a quadra brigou com o bloco
debaixo de uma sacada
O bloco foi demolido
e a quadra desabitada

— Paulo Tovar —
Qual é Brasília?, imortalizada pelo grupo Liga Tripa

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



Cidade céu
derrama azul no asfalto
anjos deixam a catedral
nessa cidade sem mar (…)
olhe o céu, meu amor
às vezes há disco voador

— Muna Ahmad —
Garagem, fragmento

FOTO: FERNANDO BIZERRA/AGÊNCIA SENADO



L2 é pouco
W3 é demais
quando estou muito triste
pego o grande circular
e vou passear
de mãos dadas
com o banco



Plano Pilotis
Duas asas partidas
Dois eixos fora dos eixos
Dois traços invisíveis
Duas pistas falsas

Minha plataforma política
É a plataforma da rodoviária



Nem tudo
que é torto
é errado
veja as pernas
do Garrincha
e as árvores
do cerrado

— Nicolas Behr —

FOTO: GABRIEL JABUR/AGÊNCIA BRASÍLIA



Flor do cerrado
Brotada das cinzas
De ramo agressivo.
Flor delicada
Vive sem água.
Lilás.

— Cristina Bastos —
Decerto o Deserto

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



Mamãe eu vou pra Candangolândia
Eu vou pra ver a Liu. (…)
Pego um Viplan (ou TCB)
Boto o meu jeans
Pra ver você

— Leonardo Almeida Filho —
Candangolândia Blues, fragmento

FOTO: RODRIGO VIANA/SENADO FEDERAL



Gritaria
Seu nome se o soubesse
Eu picharia
Os muros dessa ilha
Eu até cantaria
E se você quisesse
Iria poetar seus sonhos
Pelas ruas

Talvez traçar
Um plano sem piloto
Num voo cego
Se você viesse
Mas recolhida nessa SQS
Sequer botei o meu bloco na lua

— Letra de Teresa Fiuza sobre melodia de Abrahão Araújo —
Poetar

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



Pouca gente percebe o lago Paranoá
Passa por ele como passa um patrão pelo empregado
Ele ali, na sua lida costumeira de umedecer o ar
Pouca gente ouve o lago Paranoá
Mas seu rumorejo tem som mesclado
Entre Goiás e outro qualquer Lugar
Uns poucos pescadores admiram as poucas garças
Que se admiram da pouca educação desta tanta gente que não os vê
E lá dentro do lago um imenso coração de água
Pulsa uma lembrança doce de água
De um pequeno olho de água
Onde tudo começou

— Vicente Sá —
O Coração do Lago

FOTO: RODRIGO VIANA/SENADO FEDERAL



Se posso indagar, digo,
De artista p’ra arquiteto,
Subia na sua prancheta
A sábia lua no teto?

Tanta ânsia era a de prédio,
Tanta a pressa capital,
E a cidade em voo leve
Mas sem uma lua no céu.

E a tal cisma de evitar
As cruzes em linhas retas?
Deu no que deu de assentar
Tesouras de curvas perfeitas.

— Luiz Martins da Silva —
Lua de poeta, fragmento

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



A sombra do bico da torre na terra
faz o ponteiro
que marca o momento preciso
da gente se amar

— Luís Turiba —
Bico da Torre, fragmento

FOTO: RODRIGO VIANA/SENADO FEDERAL



Às vezes voo
Às vezes nada

Quantas vezes repouso
na mansidão do planalto

Às vezes rua,
outras vezes mata
Descoberta da chave
da liberdade

— Marba Rosangela Teixeira Furtado —

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO



Me olho no espelho
cerrado humano
torto dentro do plano
me fiz mais ou menos assim
mais ou menos assado
afroarquitetado
saí do traço de Niemeyer
nasci no asfalto
quero o barro

— Marcos Fabrício Lopes da Silva —

FOTO: RODRIGO VIANA/SENADO FEDERAL



Política é o que sou,
Desde muito sua senhora.
E no mundo vou,
Como Brasília serei história

— Mariana Miranda Tavares —

FOTO: RODRIGO VIANA/SENADO FEDERAL



Há os que só te querem grande,
Patrimônio Mundial.
Mas eu te declaro Patrimônio Meu,
Pessoal,
Intransferível,
Brasília minha.
E no meu bem-querer diminutivo,
Brasilinha.

— Paulo José Cunha —

FOTO: ANA VOLPE/AGÊNCIA SENADO


Reportagem: Nelson Oliveira
Pauta, coordenação e edição: Nelson Oliveira
Coordenação e edição de multimídia: Bernardo Ururahy
Infografia e arte: Claudio Portella
Edição fotográfica: Ana Volpe