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Sarney, 90 anos: “Meus legados são a redemocratização e os direitos sociais”
Da Redação
Publicado em 24/4/2020

O ex-presidente e ex-senador José Sarney, que completa 90 anos de idade nesta sexta-feira (24), diz que os grandes legados que ele deixou para o Brasil são a redemocratização e uma série de direitos sociais. 

— É por causa dessas conquistas que posso dizer que não passei pela política em vão — disse Sarney, em entrevista à TV Senado.

Sua carreira política começou em 1955, no ano seguinte ao suicídio de Getúlio Vargas, quando se tornou deputado federal. Foram três mandatos na Câmara. Depois, tornou-se governador do Maranhão, senador e presidente da República.

— Na Câmara, no Senado ou na Presidência, testemunhei todos os episódios da vida política contemporânea do Brasil. Algumas vezes, fui assistente; outras vezes, participante e até protagonista — afirmou.

Sarney assumiu a Presidência da República em 1985, no lugar de Tancredo Neves, que fora hospitalizado na véspera da posse e morreria semanas depois. A investidura do político maranhense marcou o fim de duas décadas de ditadura militar.

No Senado, foi um recordista. Foram 39 anos e seis meses como senador, totalizando cinco mandatos. Presidiu a Casa quatro vezes. Sarney deixou a política em 2015. 

— Nada me honrava mais do que dizer: "Eu sou um delegado do povo do meu país”.

Leia, a seguir, trechos da entrevista de Sarney:

À esq., José Sarney e Tancredo Neves na candidatura presidencial de 1985; à dir., Sarney e Ulysses Guimarães entregam a Constituição ao país em 1988 (Fotos: CPDOC FGV e Arquivo Câmara dos Deputados)

Redemocratização

Muitos governantes governaram em tempo de bonança; outros, em tempo de escassez; outros, em tempo de guerra. Eu governei num tempo em que a história brasileira se contorcia.

O Brasil saía de um regime autoritário e entrava num regime de plenitude democrática, porém com as vicissitudes dessa transição, isto é, a morte de Tancredo Neves, e o fato de eu ter assumido a Presidência da República sem ter participado da elaboração do programa de governo e da constituição do ministério. Eu não sabia quais compromissos Tancredo havia firmado.

Além disso, existia a dificuldade decorrente de eu ter pertencido a um partido que não era o de Tancredo. E ainda havia a área militar, que estava dividida. Uma parte dela tinha muitas restrições em relação a mim pelo fato de eu ter pertencido ao PDS [partido que sucedeu a Arena], ter sido presidente do PDS. Foi um período muito difícil para mim como governante. Nós corremos muitos riscos.

No meu governo, houve 12 mil greves, e o Sarney era combatido de uma maneira tremenda. Mesmo assim, eu nunca processei um jornalista, nunca procurei diminuir qualquer atividade da imprensa. Sempre acreditei que até os excessos da imprensa são corrigidos pelo tempo.

Apesar de todas as dificuldades, restauramos a democracia. Convoquei a Assembleia Nacional Constituinte e fizemos uma nova Constituição. Hoje o Brasil goza de liberdade democrática, de liberdade de imprensa, de pleno exercício da cidadania. Acredito que consegui chegar ao fim graças ao meu temperamento, à minha capacidade para dialogar, à minha habilidade para compor, sem ser um radical. Felizmente, eu consegui contornar todos os riscos daquele período e entreguei ao meu sucessor o país em paz.

 

No Senado, Sarney faz pronunciamento e concede entrevista: quase 40 anos na Casa (Fotos: Geraldo Magela e José Varella da Agência Senado)

Direitos sociais

Quando dom João VI chegou ao Brasil, as leis passaram a ser feitas para garantir a propriedade. Quando veio a República, a prioridade foram os direitos individuais. No meu governo, nós entramos na fase dos direitos sociais. O Brasil passou a ser mais justo.

Isso inclui uma coisa extraordinária que é a universalização da saúde. Quando eu assumi o governo, quem não era sindicalizado não tinha onde tomar nem sequer uma injeção. Se quisesse uma simples injeção, tinha que procurar entidades filantrópicas, como a Santa Casa de Misericórdia. Todo brasileiro tem, hoje, direito à saúde. Pode ser que o sistema não seja do jeito que queremos, porque o país não tem riqueza suficiente para atender aos problemas de todos, mas passamos a finalmente ter uma rede pública de saúde. Depois veio a Constituição de 1988 e incorporou aquilo que já tínhamos feito em termos de saúde.

Ainda nos direitos sociais, eu criei o décimo-terceiro salário [dos servidores públicos], o seguro-desemprego, a aposentadoria dos trabalhadores do campo e o vale-alimentação. Muita gente não lembra, mas aquela ajuda que as pessoas recebem para se deslocarem para o trabalho, o vale-transporte, também foi feita naquele tempo, graças à visão que tínhamos dos direitos sociais. Preocupado com os direitos da mulher, criei o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Também criei os direitos do consumidor e das pessoas com deficiência. É também do meu governo o programa Farmácia Básica, de distribuição de medicamentos.

Depois, como senador, eu fui o autor do projeto que mandou distribuir remédios gratuitos aos doentes de aids. E fui eu, também no Senado, que levantei uma tese que ninguém tinha levantado no Brasil, a de cotas para negros nas universidades e nos concursos públicos.

É por causa dessas conquistas que posso dizer que eu não passei pela política em vão. Cometi muitos erros, claro, da mesma forma que todos os políticos cometem erros. Mas nunca cometi erros por vontade minha. Repito o que Lincoln certa vez disse: "eu nunca cravei por meu desejo espinho algum no peito de ninguém".

À esq., broche de cidadãos que fiscalizavam remarcação de preços do comércio em 1986; à dir., Sarney assume no Congresso, em 1985, a Presidência da República (Fotos: Arquivo Senado e Reprodução/ISESPE)

Economia e inflação

Na economia, fala-se muito da inflação que houve no meu governo. Mas essa foi a inflação da época em que tínhamos correção monetária, algo que naquele tempo só existia no Brasil e deformava os cálculos. Há pouco tempo, nós encomendamos o cálculo em dólares da inflação do meu tempo. É comum que se calcule em dólar o PIB do passado e do presente, mas ninguém faz isso com a inflação. A Tendências, consultoria de análise econômica, chegou à conclusão de que a inflação em dólar no meu governo foi de somente 17%, e não aqueles números astronômicos.

Além disso, as pessoas esquecem que tínhamos a correção mensal dos salários. Os salários também acompanhavam a inflação. Isso era um colchão muito importante para os trabalhadores.

Na economia, tivemos números extraordinários. Foi naquele tempo que o Brasil teve a menor taxa de desemprego. Quando deixei o governo, estava em 2,59%. A média ao longo dos meus cinco anos de mandato não chegou a 4%. Hoje, o desemprego está na casa dos 12%. O Brasil, no meu governo, chegou a crescer 5% ao ano. Esse é um número que até hoje não se repetiu.

À esq., José Sarney com o presidente argentino Raúl Alfonsín em 1986; à dir., o presidente brasileiro discursa na ONU em 1985 (Fotos: Victor Bugge/Governo da Argentina e Reprodução/ISESPE)

Cenário internacional

Como presidente, eu me orgulho de ter concluído a integração latino-americana, por meio da aproximação com a Argentina e da criação do Mercosul. Eu acabei com a corrida nuclear que havia entre o Brasil e a Argentina, os países querendo fazer bomba atômica. E fizemos isso, eu e Raúl Alfonsín [presidente argentino], sem a participação de nenhum país. Hoje somos um único continente do mundo que não tem competição nuclear. Sempre achei que não deveríamos buscar atrito com os nossos vizinhos, já que se pode mudar tudo no mundo, menos a geografia.

 

Foi assim que acabamos com a rivalidade com a Argentina e que os dois países decidiram que passariam a crescer juntos. Essa visão de futuro de paz é uma coisa extraordinária que eu deixei para o país.

À esq., Sarney como membro da Academia Brasileira de Letras em 1997; à dir., no mesmo ano, ele inaugura a Rádio Senado​ (Fotos: Reprodução/ABL e Arquivo do Senado)

Atuação no Parlamento

A minha grande causa parlamentar foi a cultura. Posso dizer que fui eu quem levantou no Brasil a tese dos financiamentos e incentivos à cultura. Nunca ninguém tinha falado nisso até então. Apresentei cinco projetos nesse sentido.

Sempre procurei privilegiar o cinema. Eu tinha uma relação muito estreita não só com o pessoal da literatura, como membro da Academia Brasileira de Letras, mas também com a jovem guarda do cinema, entre eles, Luiz Carlos Barreto, Nelson Pereira dos Santos, Paulo Saraceni e Glauber Rocha, que foi meu amigo e fez um documentário sobre a minha posse como governador do Maranhão [em 1966].

No dia em que saí do Senado para assumir a Vice-Presidência da República, eu fiz um discurso dizendo que não gostava de dizer adeus e que, por isso, eu iria sair do Senado como se estivesse chegando. Foi então que apresentei pela quinta vez o meu projeto de incentivo à cultura. E depois eu tive a oportunidade de sancionar a lei. Na época, ela ganhou o nome de Lei Sarney.

Nas outras vezes, o meu projeto não havia sido sancionado porque a área econômica dos governos julgava que não se devia dar incentivo à cultura. Quando eu me tornei presidente da República, verifiquei que, realmente, quando os economistas tinham que fazer cortes, eles logo miravam a cultura. Por isso, eu logo preveni os meus ministros da Fazenda para que não fizessem isso.

Para mim, a cultura deve estar na mesa do planejador da mesma forma que estão todos os outros problemas graves do país.

À esq., Sarney em seus últimos momentos no Senado, em 2014; à dir., ao assumir o governo do Maranhão, em 1966​ (Fotos: Pedro França/Agência Senado e Cena do Filme Maranhão 66)


Entrevista: Deraldo Goulart/TV Senado
Edição de texto: Ricardo Westin
Edição de multimídia: Bernardo Ururahy
Edição de fotografia: Pillar Pedreira
Foto da Capa: Pedro França/Agência Senado
 
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)