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Despreparo financeiro da população é preocupante

Políticas públicas buscam superar falta de conhecimentos mínimos sobre uso racional do dinheiro e evitar danos individuais e à coletividade

Ricardo Westin
Publicado em 17/9/2019
Edição 688
Educação financeira

A cada dez adultos no Brasil, quatro estão inadimplentes, de acordo com a Serasa Experian. Além de assistirem ao crescimento de suas dívidas como bola de neve (pela incidência diária de multa, juros e correção monetária), as pessoas com o nome sujo na praça perdem o acesso a empréstimos bancários, cheque especial e cartão de crédito.

Uma explicação para a alta inadimplência está na situação econômica do país, historicamente delicada, com salários baixos e desemprego elevado. Mas essa não é a única causa. As contas não pagas também têm um componente individual: o chamado analfabetismo financeiro. A expressão, que remete ao analfabetismo funcional, é recente e vem sendo utilizada por universidades e instituições como o Banco Mundial.

A pessoa é considerada analfabeta financeira quando não lida com o dinheiro de forma plenamente consciente e racional. Ela, por exemplo, não tem ideia de quanto gasta por mês. Não se preocupa em classificar suas despesas (alimentação, transporte, educação, telefone, lazer) nem em saber o peso que cada categoria tem no orçamento pessoal. Compra por impulso e não reflete se o produto é necessário e urgente.

O analfabeto financeiro faz parcelamentos ignorando o peso dos juros no preço final. Entra no cheque especial e paga apenas o valor mínimo da fatura do cartão de crédito sem perceber que em ambas as situações está contraindo empréstimo — e empréstimo caro. Deixa o dinheiro parado na conta corrente e não aplica em investimentos. Por vezes, nem sequer poupa. Tais comportamentos estão presentes em todas as classes sociais.

Especialistas dizem que, como todo tipo de ignorância, o analfabetismo financeiro se combate com educação. Por isso, em 2010, o governo federal criou a Estratégia Nacional de Educação Financeira, uma política pública que uniu instituições tão diferentes quanto o Banco Central, o Ministério da Educação e a Secretaria Nacional do Consumidor na criação e execução de projetos que disseminem o conhecimento financeiro pelo país.

Entre as ações em curso, está uma voltada para aposentados (que costumam se endividar com empréstimos consignados) e outra para mulheres beneficiárias do Bolsa Família (que muitas vezes sustentam os filhos sozinhas).

O educador financeiro Alvaro Modernell, autor de 25 livros didáticos sobre o tema, resume:

— A educação financeira não ensina as pessoas a ficarem ricas, mas sim a agirem de maneira a transformar o dinheiro que elas têm, não importa se é pouco ou muito, em fonte de bem-estar, e não de dor de cabeça.

O passo mais ambicioso dessa política pública federal será dado no ano que vem, quando todas as escolas do Brasil terão de oferecer educação financeira aos estudantes. O tema está previsto na recém-criada Base Nacional Comum Curricular (BNCC), conjunto de diretrizes que servem de norte para os colégios privados e as redes municipais e estaduais de ensino construírem seus próprios currículos.

De acordo com Modernell, o ideal seria que os pais também se encarregassem da educação financeira dos filhos, mas isso não costuma ocorrer:

— O dinheiro ainda é um tabu para muitas famílias. Não se toca no assunto com os amigos, com os filhos e, em certos casos, nem mesmo com o cônjuge. Guarda-se mais segredo sobre a vida financeira do que sobre a vida sexual. Se a pessoa vive uma situação confortável, fica com medo de que lhe assaltem ou peçam dinheiro emprestado. Se ela vive uma situação ruim, não quer que ninguém saiba do seu fracasso profissional. Por isso, acaba ficando com a escola a missão de ensinar as crianças e os jovens sobre dinheiro. Se a escola de fato se propõe a preparar os estudantes para a vida, não pode ignorar a educação financeira.

A educação financeira estará em todas as séries dos ensinos fundamental e médio não como disciplina extra, mas como tema a ser trabalhado de forma simultânea pelas diversas disciplinas. É a mesma tática transdisciplinar que se adota com temas como alimentação saudável, educação ambiental e noções de trânsito.

Às crianças pequenas, os professores ensinarão questões mais genéricas e simples, como o valor do dinheiro, o caminho percorrido pelo alimento do campo à mesa de casa e a necessidade não desperdiçar água, comida e energia elétrica. Fábulas como A Cigarra e a Formiga mostrarão de forma lúdica por que é importante poupar para o futuro e não ser imediatista.

Questões mais específicas e complexas, como juros, impostos e modalidades de empréstimo, ficarão para os adolescentes do ensino médio.

Educação financeira começa nos primeiros anos do colégio (foto: TV Escola/MEC)

Para os professores que têm pouca intimidade com o mundo dos números e das planilhas, a chegada da educação financeira pode ser motivo de apreensão. Muitos deles, aliás, fazem parte daquele contingente de brasileiros com dívidas até o pescoço. A professora de economia, Ruth Hofmann, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), trata de acalmá-los:

— A educação financeira não tem a ver com matemática financeira ou contabilidade, mas sim, com mudança de hábitos e comportamentos. A abordagem é parecida com a da educação alimentar. Da mesma forma que o professor nos mostra que precisamos comer frutas e verduras e evitar frituras e doces em excesso, ele nos ensina que é importante deixar de gastar com coisas desnecessárias hoje, e passar a poupar dinheiro para o amanhã, já que isso permite que realizemos nossos sonhos.

Depois que passarem por uma capacitação, os professores das disciplinas tradicionais verão que realmente não há mistério. Em história, poderão mostrar cédulas antigas de réis, cruzados e cruzeiros para explicar o que é inflação. Em geografia, poderão recorrer ao dinheiro de outros países para ensinar a conversão de moedas.

Na aula de literatura, o poema Ou Isto, Ou Aquilo, de Cecília Meireles, poderá iniciar um debate entre os alunos sobre por que às vezes temos desejos irresistíveis de consumo. Diz um trecho do poema: “Ou guardo dinheiro e não compro o doce, / Ou compro o doce e não guardo o dinheiro”.

Em português, os professores poderão fazer interpretação de texto a partir de um contrato de aluguel. Em física, poderão levar uma conta de energia elétrica para a sala de aula e, com base no valor do quilowatt-hora (kWh) cobrado pela concessionária, mostrar quanto custa tomar um banho de dez minutos.

Das 27 redes estaduais de ensino, a do Tocantins é tida como a mais adiantada na adoção da educação financeira. Algumas escolas do estado chegam a oferecê-la no ensino médio como disciplina extra, ministrada uma vez por semana. A professora Cláudia Rebelo, da Escola Estadual Vale do Sol, em Palmas, diz que a iniciativa tem produzido grandes impactos:

— Muitos jovens acabam abandonando os estudos no ensino médio porque acham as aulas enfadonhas, teóricas demais. Quando o tema é dinheiro, ficam logo interessados, pois sabem que estão aprendendo algo que vai ter aplicação na vida deles. A educação financeira tem o poder de reduzir a evasão escolar.

Professoras de diferentes disciplinas se capacitam em educação financeira (foto: divulgação/AEF-Brasil)

De acordo com especialistas, um dos culpados pelo hábito nacional de gastar o salário rapidamente, e não guardá-lo, é o passado de hiperinflações. Muita gente ainda tem fresca na memória a cena de preços sendo remarcados diariamente no supermercado. Bastava deixar o dinheiro parado na conta corrente por apenas um dia para que ele já passasse a valer menos.

A situação mudou em 1994, quando o Plano Real estabilizou a economia e domou a inflação. A partir de então, um número expressivo de brasileiros conseguiu deixar a pobreza e entrar na classe média, e uma enxurrada de crédito passou a ser oferecida à população — de empréstimos bancários a compras divididas no carnê, em prestações a perder de vista. Veio o dinheiro, mas não a educação financeira.

O analfabetismo financeiro não é aferido apenas pelos elevados índices de inadimplência. Inúmeros estudos confirmam que, no grosso, os brasileiros são mesmo ignorantes na hora de lidar com o dinheiro. Uma pesquisa recente mostrou que metade dos adultos não entende a lógica que faz uma quantia valorizar-se quando está investida e depreciar-se quando fica exposta à inflação.

As avaliações oficiais do Ministério da Educação indicam que os estudantes não estão aprendendo os rudimentos da matemática. Numa prova para crianças do 5º ano, uma das questões trazia a imagem de algumas poucas cédulas e moedas com a indicação de seus respectivos valores. Metade dos alunos foi incapaz de fazer a soma e apontar o montante correto.

Para quem perdeu o controle do próprio dinheiro, a vida vira um inferno. Problemas financeiros sérios costumam levar à ansiedade, depressão, noites em claro, queda de rendimento no trabalho, brigas familiares, divórcio e até suicídio.

Além do custo individual, o analfabetismo financeiro impõe um preço elevado para o país como um todo. Pessoas que estão penduradas em dívidas se veem forçadas a reduzir o consumo. A indústria, o comércio e o setor de serviços passam a vender menos. Por causa da queda da demanda, trabalhadores dessas áreas são demitidos, ampliando o desemprego. Com a diminuição das vendas, menos impostos são recolhidos. O governo perde recursos que seriam aplicados em setores críticos, como saúde, educação e segurança pública.

Ao mesmo tempo, diante da inadimplência nacional alta, os empresários buscam se proteger dos calotes elevando o custo das compras parceladas, e os bancos aumentam os juros dos empréstimos. Quando essas taxas ficam mais altas, é a população que tende a ficar no prejuízo.

O analfabetismo financeiro generalizado preocupa o Senado. No ano passado, a CPI dos Cartões de Crédito investigou os altos juros cobrados dos clientes que entram no crédito rotativo e constatou a ignorância da população. De acordo com o relatório da CPI, o governo precisa exigir dos emissores de cartões de crédito que invistam um percentual de seu faturamento em educação financeira e que as lojas e os bancos afixem cartazes com alertas sobre os riscos do crédito rotativo e do cheque especial.

— O cigarro e as bebidas alcoólicas trazem alertas sobre os seus malefícios. É preciso fazer o mesmo com o endividamento. O Estado deve respeitar a decisão do consumidor se ele decidir se endividar, mas tem a obrigação de alertá-lo sobre os riscos. A experiência cotidiana mostra que o consumidor paga juros elevados porque não tem os conhecimentos financeiros mínimos — afirma o senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), que elaborou o relatório da CPI.

Fernando Bezerra Coelho, relator da CPI dos Cartões de Crédito (foto: Roque de Sá/Agência Senado)

A Câmara dos Deputados acaba de criar uma comissão especial para estudar e votar um projeto de lei do Senado que cria mecanismos para combater o superendividamento da população (PLS 283/2012). Entre os mecanismos previstos, está justamente o investimento na educação financeira. O projeto foi redigido em 2012 por uma comissão de juristas, criada pelo Senado, com a incumbência de propor mudanças no Código de Defesa do Consumidor.

O mundo passou a dar mais atenção à educação financeira das pessoas a partir da crise mundial de 2008. Tomaram medidas nesse sentido tanto países ricos, como Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, quanto países em desenvolvimento, como Colômbia, Índia e Indonésia. Foi nessa mesma onda que o Brasil entrou, ao criar, há nove anos, a Estratégia Nacional de Educação Financeira. Em comum, todos esses países concentram esforços nos colégios.

— Os resultados são melhores quando trabalhamos com crianças e adolescentes. Nos adultos, os hábitos ruins já estão mais enraizados e a mudança comportamental é mais difícil — explica a gerente-executiva de Responsabilidade Corporativa da Serasa Experian, Andrea dos Santos Regina. Ela acrescenta: — Além disso, as crianças são excelentes multiplicadoras do conhecimento. Elas levam para casa a educação financeira aprendida na escola e conseguem influenciar os pais e mudar os costumes da família inteira.

Estudiosos da área admitem que a expressão “educação financeira” não é das mais felizes. Primeiro, porque dá a impressão de que é um tema complexo que exige fazer contas com calculadora científica. Depois, porque pode levar a crer que se trata daquelas dicas de investimentos dadas no YouTube pelos coaches financeiros da moda.

— O termo “financeiro”, de fato, intimida muitas pessoas — diz a coordenadora de Projetos da Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF-Brasil), Claudia Donegá. — Entre os vários cursos que oferecemos, um é direcionado às mulheres que são atendidas nos centros de assistência social. No início, não havia interesse, quase ninguém aparecia. Decidimos, então, mudar a abordagem. Deixamos de dizer: “Vamos participar de um curso de educação financeira?”. Passamos a dizer: “Vamos falar sobre dinheiro, grana?”. Elas aceitam na hora, e os cursos ficam lotados.


Reportagem: Ricardo Westin
Pauta, coordenação e edição: Nelson Oliveira
Coordenação e edição multimídia: Bernardo Ururahy
Edição fotográfica: Pillar Pedreira
Infografia: Bruno Bazílio e Diego Jimenez
Foto de capa: João Geraldo Borges Júnior/Pixabay