Jovem Senador 2026: juventude revela maturidade sobre democracia digital
“Se as redes sociais fossem um jardim, cada publicação seria uma semente lançada ao vento – capaz de florescer em consciência ou se perder na intolerância. Nesse espaço fértil, palavras se propagam rapidamente e atingem horizontes inimagináveis”. Este foi um dos trechos da redação de Yasmin da Silva Freitas, estudante selecionada para representar o Acre no Programa Jovem Senador e Jovem Senadora Brasileiros de 2026. O concurso bateu recorde histórico com cerca de 240 mil estudantes inscritos de 5 mil escolas públicas de ensino médio em todo o país.
Quem esperava encontrar textos limitados a opiniões superficiais sobre o universo das redes sociais certamente foi surpreendido. Os estudantes apresentaram um repertório que vai muito além do esperado para o ensino médio e revelaram uma juventude disposta a compreender, por diferentes perspectivas, os desafios da democracia no século XXI.
Com o tema "Democracia nas redes sociais: como construir um debate saudável", os participantes transformaram a folha em branco em um espaço de reflexão sobre liberdade, cidadania, tecnologia e responsabilidade coletiva. Mais do que responder a uma proposta de redação, eles construíram análises consistentes sobre um dos temas mais urgentes da atualidade e também apresentaram propostas para tornar o ambiente digital mais democrático e seguro.
Para o chefe de serviço do Programa Jovem Senador e Jovem Senadora Brasileiros, George Cardim, o concurso mobilizou a comunidade escolar a pesquisar, refletir e escrever sobre temas ligados à democracia e à cidadania.
— O tema estimulou o debate sobre educação midiática, combate à desinformação e enfrentamento do discurso de ódio. Em um ano de eleições gerais, a expressiva participação dos estudantes demonstra o interesse das novas gerações em refletir sobre o fortalecimento da democracia e a construção de um ambiente digital mais responsável, plural e respeitoso. Nesse processo, eles desenvolveram o pensamento crítico e percebem que sua participação pode contribuir para construir um país melhor para as próximas gerações — disse.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2025, dos 186,4 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais de idade, 90,5%, o equivalente a 168,7 milhões de pessoas, utilizaram a internet, ultrapassando, pela primeira vez, o patamar de 90% de usuários na média nacional.
Entre as regiões do país, o Centro-Oeste registrou a maior proporção de pessoas que utilizaram a internet (93,6%), seguido pelas regiões Sul (91,7%), Sudeste (90,9%), Norte (89,7%) e Nordeste (88,5%).
Na faixa etária de 14 a 19 anos, 94,8% das pessoas utilizaram a internet. No recorte por sexo, 91,1% das mulheres utilizaram a internet em 2025, percentual ligeiramente superior ao registrado entre os homens (89,9%).
Repertório que impressiona
Nas redações, nomes consagrados da literatura, da filosofia, da sociologia, da ciência política e da comunicação aparecem com naturalidade. Não como simples citações, mas como instrumentos para interpretar uma realidade marcada pela velocidade da informação, pela polarização política e pela influência dos algoritmos. Esses estudantes se revelaram intérpretes do século XXI, munidos de um repertório filosófico e literário.
George Orwell foi um dos autores mais lembrados. Em diferentes redações, o universo da obra 1984 serviu de ponto de partida para discutir vigilância, manipulação da informação e controle das narrativas digitais. Segundo Ana Bricia Oliveira Soares, finalista do Maranhão, “a obra alerta para os riscos da manipulação da verdade como instrumento de controle social”; já Maycon Monteiro da Silva, representante de Rondônia, afirmou que “a literatura retrata uma sociedade em que a liberdade de expressão é cerceada, impedindo o florescimento de ideias divergentes”.
Rita de Cássia Medeiros da Silva, finalista do Rio Grande do Norte, afirmou que, “na Grécia Antiga, as ágoras constituíam espaços destinados à discussão de leis, políticas e filosofia. Na mais simbólica delas, a Ágora de Atenas, consolidou-se o conceito de democracia. De modo análogo, na contemporaneidade, as redes sociais configuram-se como uma ‘nova ágora’, representando uma evolução do modelo grego, uma vez que o ambiente digital amplia, de forma às vezes descontrolada, a participação social nos debates públicos e impõe desafios para a garantia dos princípios democráticos”.
Os estudantes também recorreram ao ativista e escritor Eli Pariser para explicar o conceito das "bolhas de filtro", fenômeno que restringe o acesso a diferentes pontos de vista e compromete o pluralismo. O documentário “O Dilema das Redes” foi frequentemente citado para demonstrar como as plataformas digitais disputam a atenção dos usuários e moldam comportamentos por meio de algoritmos.
A Constituição Federal de 1988 também foi mencionada para reforçar que a liberdade de expressão é um direito fundamental. Os alunos lembraram, contudo, que a liberdade de expressão deve coexistir com outros princípios constitucionais, como a dignidade da pessoa humana e o direito à informação. O Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) apareceu como referência para discutir direitos, deveres e responsabilidades no ambiente digital.
A literatura e o audiovisual brasileiros também encontraram espaço nas redações. O documentário “Democracia em Vertigem” foi citado em discussões sobre os desafios da democracia brasileira. Já “A Rede de Ódio” serviu de referência para analisar os impactos da desinformação no debate público. Houve ainda quem buscasse, na obra “Não Verás País Nenhum”, do romancista e jornalista Ignácio de Loyola Brandão, elementos para refletir sobre os riscos de uma sociedade marcada pela perda da participação cidadã.
— As redações mostraram que muitos estudantes acompanham os debates políticos, buscam informações em diferentes fontes e conseguem relacionar temas atuais a conhecimentos históricos e sociais. Isso demonstra uma crescente capacidade de analisar problemas e propor soluções. Mais do que reproduzir opiniões já conhecidas, eles trazem para esse debate um ponto de vista diferente, de jovens que vivem diariamente os desafios e as oportunidades das redes sociais. Eu vejo que, no futuro, este será um material rico de pesquisa para quem quiser saber sobre o que pensavam os estudantes brasileiros de escolas públicas de ensino médio — concluiu George Cardim.
Integrante da Comissão Julgadora do programa desde 2023 e representante da Coordenação de Ensino Superior do Instituto Legislativo Brasileiro, Telma Venturelli afirma que o tema da redação foi muito oportuno porque relacionou uma questão política fundamental a uma dimensão concreta da vida dos estudantes.
— Eles vivem diariamente nas redes e conhecem, por experiência própria, tanto as possibilidades de expressão e participação quanto a violência, a desinformação, a pressão dos grupos, os julgamentos precipitados e as dificuldades de diálogo presentes nesses ambientes. O tema permitia muitas abordagens e convidava à reflexão sobre liberdade de expressão, responsabilidade, diversidade, respeito, funcionamento dos algoritmos, educação midiática e participação democrática.
Telma deixou uma mensagem aos estudantes que tiverem interesse em participar das próximas edições:
— Estudem o tema, leiam o guia, pesquisem fontes diferentes, conheçam os critérios de avaliação e cuidem da organização e da correção do texto. Mas, depois de fazer tudo isso, permitam-se pensar com a própria cabeça. Não escrevam apenas aquilo que imaginam que a Comissão deseja ler. Perguntem-se o que vocês, como adolescentes que vivem este tempo e esta realidade, realmente têm a dizer. Quando o tema estiver tão ligado à experiência cotidiana, tragam um pouco da vida de vocês para a reflexão: uma situação observada, uma contradição percebida, uma pergunta que os inquieta ou uma solução em que verdadeiramente acreditam — finalizou.
A Comissão Julgadora do Programa Jovem Senador e Jovem Senadora Brasileiros foi composta por servidores da Consultoria Legislativa, da Secretaria-Geral da Mesa (SGM), do Instituto Legislativo Brasileiro (ILB), da Secretaria de Comunicação Social (Secom) e da Secretaria de Editoração e Publicações (Segraf).
A Comissão avaliou as 81 redações finalistas encaminhadas pelas Secretarias de Educação de todo o país. Os 27 estudantes vencedores, um de cada estado e do Distrito Federal, foram anunciados como Jovens Senadores e Jovens Senadoras e participarão da Semana de Vivência Legislativa, no Senado Federal, entre os dias 17 e 21 de agosto.
De acordo com o regulamento, as redações foram avaliadas com base no modelo das cinco competências utilizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) na correção do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) adaptado ao contexto do programa. Entre os critérios analisados estão a compreensão do tema, a argumentação, o conteúdo, a organização textual e a proposta de intervenção.
Propostas para fortalecer a democracia digital
Os estudantes não se limitaram a identificar problemas. Em grande parte das redações, eles apresentaram propostas concretas para tornar o ambiente digital mais democrático e seguro. A principal delas é a implementação de programas permanentes de educação midiática e de letramento digital nas escolas, para que crianças e adolescentes desenvolvam a capacidade de analisar criticamente as informações, identificar notícias falsas e compreender o funcionamento dos algoritmos e das plataformas digitais.
Os jovens também defenderam a criação e o fortalecimento de políticas públicas voltadas à educação midiática, entendendo que a formação para o uso consciente das redes sociais deve fazer parte da educação básica. Outra proposta recorrente é a regulamentação das plataformas digitais, com regras que ampliem a transparência dos algoritmos. Além disso, as plataformas digitais devem investir em tecnologias de checagem para identificar conteúdos potencialmente falsos. Os usuários, por sua vez, devem agir com empatia digital e respeito ao diálogo, contribuindo para transformar as redes sociais em um espaço de construção coletiva e fortalecimento da democracia.
O conjunto das redações revelou que essa geração não deseja apenas participar das redes sociais, mas também contribuir para transformá-las em espaços de convivência democrática. Os estudantes demonstram compreender que preservar a democracia na era digital exige mais do que o acesso à tecnologia. Exige educação, pensamento crítico, responsabilidade coletiva, respeito às diferenças e compromisso com a verdade.
— O Programa Jovem Senador e Jovem Senadora Brasileiros reafirma seu compromisso com a formação cidadã ao estimular estudantes de todo o país a refletir sobre temas essenciais para a democracia. As redações finalistas revelam uma geração curiosa, crítica e preparada para participar do debate público. São jovens que pesquisam, confrontam diferentes perspectivas, dialogam com autores clássicos e contemporâneos, transformando esse repertório em argumentos consistentes e propostas viáveis para os desafios do presente — acrescentou a diretora da Secretaria de Comunicação, Glauciene Lara.


