Debatedores defendem reconhecimento histórico da violência contra o povo cigano
Participantes da audiência pública promovida pela Comissão de Direitos Humanos em memória das vítimas do Holocausto Cigano defenderam o reconhecimento histórico da violência contra o povo Romani. Estima-se que de 220 mil a 1,5 milhão de ciganos tenham sido mortos durante a Segunda Guerra. Muitos dos sobreviventes buscaram refúgio no Brasil: o país acolhe hoje em torno de um milhão de ciganos em 21 estados.

Transcrição
Na noite de 2 para 3 de agosto de 1944, 4300 ciganos foram assassinados nas câmaras de gás nazistas. A data foi escolhida pelo Parlamento Europeu como Dia em Memória do Holocausto Cigano ou Romani – tema de uma audiência pública que reuniu especialistas na Comissão de Direitos Humanos.
Estima-se que de 220 mil a 1 milhão e meio de ciganos tenham sido mortos durante a Segunda Guerra. Muitos dos sobreviventes buscaram refúgio no Brasil: o país acolhe hoje em torno de um milhão de ciganos em 21 estados, especialmente das etnias Rom, Sinti e Calon.
Mas, de acordo com a doutora em Ciências Sociais e descendente Rom Aline Miklos, do Instituto Vladimir Herzog, a perseguição aos ciganos chegou ao país antes, no período da colonização. Ela defendeu o reconhecimento do anticiganismo como uma forma de racismo.
(Rom Aline Miklos) "Até 1760, existiram mais ou menos 12 normativas do Império Português que serviam para o Brasil, dizendo como o Estado deveria tratar essa população. Então, quando a gente fala de perseguição ao povo Romani, a gente está falando de uma perseguição que vem de antes, que é histórica. Então, o problema é muito maior. Não é só preconceito e não é só discriminação."
O professor Marcos Toyansk, Coordenador do Grupo de Estudos Ciganos da Universidade de São Paulo – que também é descendente de ciganos e judeus – disse que, apesar de compartilharem a diáspora e o genocídio, apenas um desses povos recebeu a devida reparação histórica.
(Marcos Toyansk) "Então, neste momento, nós temos um distanciamento entre a realidade dos judeus e dos ciganos. Ao sobreviver, os judeus passaram a ser reconhecidos como vítimas de perseguição racial, enquanto os ciganos permaneceram excluídos dessa presunção jurídica e sendo obrigados a comprovar individualmente que haviam sido perseguidos por razões raciais."
A presidente da comissão, senadora Damares Alves, do Republicanos do Distrito Federal, lembrou que um projeto do senador Paulo Paim, do PT do Rio Grande do Sul, que cria o Estatuto dos Povos Ciganos aguarda análise da Câmara dos Deputados. A proposta prevê a livre manifestação cultural e o combate à discriminação, além do acesso à terra, à moradia e ao trabalho.
(senadora Damares Alves) "Eu tenho a alegria de informar que em 2014, 2015, eu era só uma assessora nessa casa. E eu estava aqui nessa comissão, lutando para que a gente tivesse um estatuto dos povos ciganos. Trabalhamos sonhando que naquele ano a gente conseguiria aprovar em 2015, na Câmara e no Senado. Mas, lamentavelmente, estamos em 2026 e o projeto está parado na Câmara dos Deputados, aguardando a formação de uma comissão."
Também participaram da audiência a idealizadora do Museu Virtual de Memórias da Imigração Cigana de Curitiba, Hayanne Iovanovitchi, o presidente do Instituto PluriBrasil, Igor Shimura, e o Coordenador-Geral do Museu do Holocausto de Curitiba, Carlos Reiss, além de representantes do povo cigano Calon do estado de Goiás.
Da Rádio Senado, Raíssa Abreu.

