Legado de Celso Furtado e da Sudene encerra série ‘A Cepal e o Brasil’

Da Redação | 21/12/2018, 10h27 - ATUALIZADO EM 21/12/2018, 12h31

A Rádio Senado e o Portal do Senado veiculam nesta sexta-feira (21) o último programa da série A Cepal e o Brasil, em alusão aos 70 anos da Comissão Econômica para a América Latina, a Cepal, órgão da ONU criado em 1948 para auxiliar os países da região em seus processos de desenvolvimento sócio-econômico.

No programa o destaque é o legado deixado pelo economista Celso Furtado (1920-2004) na Cepal, que produziu um grande impacto também no Brasil. Furtado atuou na Cepal entre 1949 e 1957 como diretor da Divisão de Desenvolvimento Econômico.

Em parte deste período o economista, inspirador do desenvolvimentismo, colaborou com a equipe responsável pelo programa “Plano de Metas — 50 anos em 5”, que norteou a gestão do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) entre 1956 e 1961.

Criação da Sudene

Também por causa dessa atuação, em 1959 ele foi escolhido por JK para ser o primeiro presidente e responsável pela estruturação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), órgão considerado crucial para o início do processo de industrialização da região. Tanto na Sudene quanto no governo JK, o enfoque desenvolvimentista defendido pela Cepal foi determinante no processo de industrialização daquele período.

— Avalio que a gestão de Furtado na Sudene, que durou até o golpe militar de 1964, foi marcada pelo planejamento dos grandes eixos de desenvolvimento. Daí resultou por exemplo a BR-030 e o Porto de Campinhos. Ele e JK eram ousados, porque já diziam naquela época que estas rotas serviriam ao escoamento da produção do celeiro do Brasil, o Centro-Oeste. Que não eram um celeiro naquela época, mas que hoje se tornaram o celeiro do mundo. Acredito que exemplos como este traduzem a missão de um órgão de desenvolvimento. Pena que a Sudene com o passar do tempo tornou-se um mero órgão de ocupação política —afirmou o senador Walter Pinheiro (sem partido-BA) em entrevista à Agência Senado.

Para o senador, o órgão deveria, remodelado, retomar parte do espírito e da concepção com que vigorou em seus primeiros anos.

— A Sudene foi concebida na identificação criteriosa dos contornos regionais, suas dificuldades e necessidades. É preciso este diagnóstico criterioso sobre as potencialidades, mas isto só será válido se houver uma estrutura de desenvolvimento. Mas as estruturas de assistencialismo e de ocupação de espaço na política destruíram esta capacidade de planejamento — aponta.

À despeito destas críticas, Pinheiro reconhece que a Sudene cumpriu um papel importante para o desenvolvimento industrial e da infra-estrutura da região.

— Foi a Sudene quem permitiu uma rota de desenvolvimento importante, foi um vetor de logística. Foi o que conseguimos trabalhar no Nordeste e explorar especialmente as potencialidades hídricas em uma região que é seca. Está aí o Rio São Francisco, contribuindo hoje de forma relevante para a geração de energia. Tudo isto foi fruto de uma linha de planejamento que veio da Sudene e da trajetória cepalina de Furtado. Minha esperança é que algum dia um presidente da República revisite o espírito daquela época, de forma repaginada, é claro. Fica aí minha provocação... Fico só imaginando o que um JK ou um Furtado fariam hoje, com toda a tecnologia que temos à disposição. A diferença é que o enfoque predominante hoje é pontual e distante dos interesses regionais, priorizam principalmente a ocupação de espaços políticos — concluiu o senador.

Clássico da economia

Furtado atuou diretamente na Cepal entre 1949 e 1957, marcando a primeira geração da instituição. Junto com seu primeiro diretor, o economista argentino Raul Prebisch, mais os colegas chilenos Aníbal Pinto e Osvaldo Sunkel, dentre outros, exerceu forte influência nos rumos do debate e das estratégias de desenvolvimento adotadas por diversos países naquele momento.

Furtado acabou por ser incluído na primeira leva de banidos pelo regime militar instalado em 1964, o que o levou ao exílio. Voltou ao Chile, e no ano seguinte passou a integrar os quadros da Universidade de Yale, nos Estados Unidos.

Ainda em 1965 o economista seguiu para a França, a convite da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Paris (Sorbonne). Foi o primeiro estrangeiro nomeado para uma universidade francesa, e isto a partir de decreto presidencial do general Charles de Gaulle (1890-1970. Permaneceu nos quadros da Sorbonne por 20 anos.

Durante a década de 1970, também atua para a ONU em diversas missões oficiais na África, na Ásia e na América Latina. Acumula estes cargos com o de professor-visitante da American University (em Washington, EUA), da Columbia University (New York) e da Universidade de Cambridge (Inglaterra). E entre 1978 e 1981, também integra o Conselho Acadêmico da recém-criada Universidade das Nações Unidas, em Tóquio.

Com a Lei da Anistia (Lei 6.683, de 1979), o economista volta a integrar-se à vida acadêmica e institucional do país. Publicou dezenas de livros, artigos e ensaios, até falecer em 2004. Destacam-se os clássicos Formação Econômica do Brasil, de 1959 e Desenvolvimento e Subdesenvolvimento, de 1961, estudados em todo o mundo.

— Se eu fosse escolher uma cabeça que mais ajudou na formação da minha, eu colocaria Celso Furtado entre as mais importantes. Foi extremamente importante porque ao ler Formação Econômica do Brasil, a gente começa a explicar, e não apenas a decorar a história do Brasil — afirmou o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) em entrevista à Agência Senado.

O programa A Cepal e o Brasil será veiculado pelo Conexão Senado, às 8h30, sendo reprisado pela Rádio Senado às 22h. No final de semana também irá ao ar uma reportagem especial na Rádio com conteúdo inédito, incluindo uma entrevista com o atual diretor do escritório da Cepal em Brasília, o economista Carlos Mussi.

A reportagem especial irá ao ar neste sábado (22) às 10h, sendo reprisada no domingo às 17h.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)