Eduardo Campos deixa vazio na vida política brasileira, dizem participantes de homenagem
Da Redação | 13/08/2015, 14h15
O Plenário do Senado reverenciou, nesta quinta-feira (13), a memória do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, morto em um trágico acidente de avião há exatamente um ano. Ele era candidato à Presidência da República pelo PSB e tinha como vice a ex-senadora Marina Silva, que assumiu a candidatura e foi a terceira colocada na eleição. A família também realiza celebração semelhante em Recife (PE).
Proposta por seu companheiro de partido, senador Roberto Rocha (PSB-MA), todos os participantes da homenagem salientaram o quanto Eduardo tinha um perfil conciliador e inovador, engraçado, leve e jovial, com uma postura de modernização da atividade política e de valorização do Nordeste. Roberto Rocha lamentou a “trapaça do destino” que tirou Eduardo de cena e acabou negando ao Brasil a oportunidade de acompanhar por mais tempo uma retórica diferenciada, com apelo novo e ânsia de futuro.
—Tivesse ganhado ou não a eleição, ele seria uma voz mais qualificada para fazer a ponte entre o país que somos e o país que almejamos ser — disse.
O parlamentar homenageou os outros ocupantes do avião, também mortos na queda: o sobrinho do senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), o assessor de campanha Pedro Valadares; o assessor de imprensa Carlos Percol; Alexandre Severo, fotógrafo; Marcelo Lira, cinegrafista; e os pilotos Geraldo Magela e Marcos Martins.
O presidente do Senado, Renan Calheiros, afirmou que o acidente tirou do convívio dos brasileiros um homem de rara visão e espírito público, sempre à frente do seu tempo, e responsável por iniciativas importantes como a Lei de Biossegurança e o uso do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para que o trabalhador ou seus dependentes possam pagar o curso superior.
Vitimado duas vezes por perder o amigo e o sobrinho que o levou a ingressar no PSB, há mais de 20 anos, o senador Valadares salientou o exemplo edificante de Eduardo Campos, que soube empreender na luta política, respeitando o adversário e sabendo fazer articulações para o bem, trabalhando em benefício da humanidade.
Crise
O senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE) afirmou que, se vivo estivesse, Eduardo Campos seria uma voz indispensável para o atual momento de crises, dúvidas e incertezas que o Brasil atravessa. Ele agregaria as lideranças, construiria pontes e trabalharia olhando para frente, porque “Eduardo não fazia política pelo retrovisor, ele tinha os olhos postados no futuro”, e resta aos integrantes do PSB manter “a chama da esperança acesa, de não desistir do Brasil”:
— Pretendemos, com a força de seu exemplo, Eduardo, construir o futuro desta Nação. Um futuro onde o filho do rico e o filho do pobre possam estudar na mesma escola pública, que era o que você desejava, que era o que você sonhava!
Num cenário de instabilidade política e econômica vivido no país, o governador e ex-senador pelo Distrito Federal Rodrigo Rollemberg (PSB) lamentou a ausência da capacidade de diálogo e articulação demonstrada pelo ex-governador de Pernambuco.
— Ele não fazia ofensa aos adversários, mas a crítica no campo político, o que lhe permitiu fazer alianças inimagináveis, unindo polos políticos que se confrontaram ao longo dos anos, mas que depois se uniram em defesa dos interesses do país — recordou.
Na opinião do presidente do PSB, Carlos Siqueira, se vivo estivesse, Eduardo Campos seguramente seria um agregador, um homem de pontes, de ideias e união, como foi em toda sua trajetória. Assim como seu avô, Miguel Arraes, também morto num dia 13 de agosto, mas de 2005. Segundo Siqueira, toda a nação precisa estar unida para resolver os problemas graves que afetam os campos social, ético, político, econômico e até mesmo hídrico e energético, e que atingem toda a população, não podem ser localizados em pessoas e partidos.
— Se políticos e empresários não entenderem que o problema é esse, estaremos optando pela psicologia no naufrágio — avaliou.
Conterrâneo de Eduardo Campos, o senador Humberto Costa (PT-PE), líder de seu partido na Casa, disse que o ex-governador de Pernambuco faz falta em um momento em que o país está polarizado. Campos, disse o senador, tinha como principais características a liderança e a capacidade de “construir pontes e consensos”:
— Sem dúvidas, ele estaria hoje cumprindo o papel de unir nossa sociedade e superar a crise para construir um país melhor. Em nome do PT, quero prestar minha homenagem a Eduardo — disse.
Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) também destacou a “enorme contribuição” que Eduardo daria nesse momento gravíssimo da vida nacional, em que o Brasil precisa de uma “concertação nacional”.
Chapa
O ex-senador Pedro Simon, do Rio Grande do Sul, também esteve presente à homenagem e lembrou bastidores dos entendimentos que resultaram na união entre o ex-governador Eduardo Campos e a ex-senadora Marina Silva. Na época, outubro de 2013, o partido de Marina, a Rede, tivera o registro negado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Amigo de Marina, Simon telefonou para ela e sugeriu acordo com então dirigente do PSB.
— Se queres realmente somar, fales com Eduardo Campos. Acho que, neste momento em que fizeram essa injustiça contigo, se tu te unires a Eduardo, a dupla vai ser espetacular. Marina concordou na mesma hora.
Simon disse ter relatado o diálogo com Marina para o ex-governador de Pernambuco, que estava em Paris e decidiu retornar ao Brasil no dia seguinte, para se encontrar com a ex-senadora, firmar o entendimento e iniciar a campanha.
Amizade
O senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) frisou a relação de carinho, amor e amizade verdadeira construída com o político, que esteve ao seu lado em momentos difíceis passados na gestão da Paraíba e que o consolava: “Cunha Lima, eu também já beijei o tatame”. Estar ao lado dele, observou Cássio, era sempre uma alegria, por sua descontração, presença de espírito e capacidade de desanuviar qualquer ambiente, por mais austero que fosse.
Marta Suplicy (sem partido-SP) salientou a determinação, o encantamento pela política e a rapidez com que Eduardo Campos conduzia sua vida e assumia seus compromissos. Ele, muito cedo, percebeu sua vocação, fazia política de forma vocacionada, um diferencial em sua atuação, avaliou.
O senador Hélio José (PSD-DF) afirmou que o tom da homenagem pelo primeiro aniversário de morte do ex-governador de Pernambuco deve ser o de “celebração da vida”.
— Encontrar Eduardo, ter o prazer de trocar ideias com ele, era como enfiar o dedo numa tomada, não havia como não ser eletrocutado, como não receber a energia que emanava dele — resumiu.
Atuação
Eunício Oliveira (PMDB-CE) salientou a visão de futuro que colocava Eduardo Campos sempre à frente, expressa no novo ritmo impresso ao Ministério da Ciência e Tecnologia durante sua gestão, no governo Lula, quando foi possível aprovar vários marcos regulatórios da política científica e criar a Olimpíada da Matemática. Eunício lamentou o vácuo deixado por Eduardo na política brasileira, uma atestada liderança nordestina, com uma trajetória que seguramente o levaria a galgar os mais altos postos da República.
João Capiberibe (PSB-AP) informou que a bancada do partido vai propor que a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas receba o nome de Eduardo Campos, pois foi criada em sua gestão à frente do ministério. O senador lembrou que o ano de 2014 foi especialmente doloroso para o PSB, que perdeu além de Eduardo Campos, Ariano Suassuna, escritor e filiado ao partido.
— Eduardo, Ariano e Miguel Arraes são três expoentes do nosso partido, são mortos que nunca morrem. É preciso honrar suas memórias, merecer seus legados — disse.
A ligação entre Eduardo Campos e seu avô Miguel Arraes, que também foi governador de Pernambuco, foi lembrada pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF), a quem o senador deu seu primeiro voto. Cristovam disse ainda que o acidente aéreo interrompeu a vida de Eduardo, mas não matou seus sonhos.
Falando em nome das mulheres socialistas, Lídice da Mata (PSB-BA) destacou a sensibilidade de Eduardo Campos para causas femininas. Lembrou a criação da Secretaria da Mulher, na gestão do homenageado como governador de Pernambuco, e os avanços na inclusão das mulheres pernambucanas.
— A democracia exigia uma política também de inclusão da outra metade da humanidade, que são as mulheres, e Eduardo assim o fez, com dedicação e respeito à luta das mulheres, com respeito à sua secretária, Cristina Buarque, implantou uma política de inclusão social que marcou a postura de um governante socialista — disse Lídice, destacando ainda o respeito de Eduardo Campos às lutas das minorias.
Coleção
O presidente da Fundação João Mangabeira, ex-governador e ex-senador Renato Casagrande (PSB-ES), disse que a obra e o pensamento de Eduardo Campos o tornam imortal. Para Casagrande, o ex-candidato do PSB será sempre referência de “uma nova política que tem de ser feita com ética, com decência, com transparência e com resultado”.
O presidente da Fundação João Mangabeira lembrou que Eduardo Campos se lançou candidato à Presidência da República para romper a polarização entre duas posições políticas, o PT e o PSDB. Segundo ele, quando só há duas posições políticas, ocorre o empobrecimento do debate.
Durante a sessão, Casagrande lançou uma coleção de livros com os discursos de Eduardo Campos nos quase oito anos do seu governo em Pernambuco e anunciou uma linha do tempo com a trajetória do ex-dirigente do PSB, no site www.vivaeduardocampos.com.br
Também participaram da homenagem Márcia Rollemberg, primeira-dama do Distrito Federal; Emilia Ribeiro, secretária-executiva do Ministério da Ciência e Tecnologia; Gilberto Kassab, ministro das Cidades; o deputado Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Tony Corrêa, poeta e ator português, entre outras autoridades e figuras políticas.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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