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Nova Constituição e nova gestão: Senado moderno nasceu há 80 anos

Ricardo Westin
Publicado em 18/9/2026

O Senado brasileiro já tem mais de dois séculos de existência (foi criado pela Constituição de 1824). Porém, foi há exatos 80 anos que ganhou contornos modernos — os mesmos que, em essência, se mantêm até hoje.

A modernização das atribuições da câmara alta do Parlamento foi determinada pela Constituição de 18 de setembro de 1946, a quinta da história nacional, promulgada após o fim da ditadura do Estado Novo (1937-1945).

Esse processo também incluiu transformações internas. Naquele mesmo ano, assim que foi instalada, depois de ficar fechada durante os oito anos do Estado Novo, a Casa passou a contar, pela primeira vez em sua história, com uma estrutura profissional para dar suporte técnico às atividades parlamentares — a Secretaria-Geral da Mesa (SGM) e a Diretoria-Geral (DGer).

Escorado nos contornos da nova Constituição e na criação desses dois órgãos, o Senado que conhecemos nasceu em 1946. Suas estruturas se ramificaram desde então, mas sempre a partir do tronco consolidado naquele ano.

Fundamentos

A diferença da Constituição de 1946 para outras que vieram depois é que ela foi a única que precisou reconstruir o Senado, já que ele havia sido extinto pelo Estado Novo. As Constituições de 1967 e 1988, por exemplo, também inauguraram novos regimes políticos, mas não mexeram radicalmente no funcionamento formal do Parlamento.

Veja, a seguir, seis características atuais do Senado que remontam àquela Carta:

1

Iniciativa dos projetos de lei

Os senadores e as comissões do Senado recuperaram a prerrogativa de apresentar projetos de lei. Pela Constituição de 1934, a iniciativa da maioria dos projetos de lei cabia prioritariamente aos deputados federais e às comissões da Câmara. No caso do Senado, somente o Plenário tinha permissão para apresentar projetos. Isso significa que a Casa não estava no mesmo nível hierárquico da Câmara, e o papel dos senadores era apenas de “colaboração”, revisando as propostas aprovadas pelos deputados.

2

Número de senadores

O Senado voltou a ter três representantes por estado, como ocorria na Primeira República. Na Constituição de 1934, eram apenas dois. Os eleitores passaram a renovar um senador numa eleição e dois senadores na votação seguinte, quatro anos depois. Na Primeira República, a renovação era de um parlamentar a cada três anos, e pelas regras de 34, seria de um parlamentar a cada quatro anos.

3

Suplente de senador

Foi a Constituição de 1946 que criou a suplência no Senado. O suplente é eleito juntamente com o titular e assume o mandato quando o cabeça da chapa o deixa vago, por morte, renúncia ou cassação. Antes, o senador era eleito sozinho, sem suplente. Por isso, quando o mandato ficava vago antes do término do mandato, uma nova eleição tinha que ser convocada no estado para substituir o senador original.
Jornal noticia a promulgação da Constituição de 1946; Carta reabriu e modernizou o Senado Biblioteca Nacional Digital

4

Controle ético e decoro parlamentar

Como forma de garantir a ética interna, a Constituição de 1946 criou a punição por quebra de decoro parlamentar. O próprio Senado ganhou o poder de cassar, por votação, o mandato de senadores que praticassem atos incompatíveis com o cargo, como a corrupção.

5

CPIs

Outra modernização surgida em 1946 foi a permissão para que o Senado abrisse comissões parlamentares de inquérito (CPIs) para investigar grandes questões de interesse público, como denúncias contra o Poder Executivo. Antes, as CPIs só podiam ser criadas pela Câmara dos Deputados.

6

Comissões temáticas

A Constituição de 1946 fortaleceu as comissões do Senado. Os ministros de Estado passaram a ser obrigados a comparecer aos colegiados temáticos para prestar informações aos senadores. Até então, podiam dar informações por escrito. Além disso, determinou-se que a proporcionalidade partidária do Senado teria que ser respeitada, sempre que possível, na composição das comissões.
Palácio Monroe, no Rio: prédio abrigou o Senado até a inauguração de Brasília, em 1960 Augusto Malta/Acervo Instituto Moreira Salles

A história das Constituições mostra que a de 1946 foi, de fato, um divisor de águas para o Senado. As Cartas de 1824 e 1891 garantiam um bicameralismo equilibrado, com as atribuições legislativas bem distribuídas entre senadores e deputados. A de 1934, porém, encolheu consideravelmente a importância do Senado, dando maior peso à Câmara.

A Constituição ditatorial de 1937, por sua vez, simplesmente eliminou o Senado. O Poder Legislativo, de acordo com ela, seria exercido pela Câmara dos Deputados e pelo Conselho Federal. Nenhum dos dois braços do Parlamento, contudo, chegou a funcionar porque o ditador não os instalou, governando sem o Poder Legislativo e criando leis por conta própria durante oito anos.

De acordo com o historiador Antonio Barbosa, professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB), a Constituição promulgada há 80 anos não apenas recriou e modernizou o Senado: ela recuperou o sistema federalista.

— A Carta de 1946 devolveu ao Senado o protagonismo que havia sido retirado em 1934. Nos governos de Vargas [1930-1945], os estados perderam espaço na política institucional para que o governo central fosse fortalecido. Terminado esse período Vargas, os estados e, automaticamente, o Senado recuperaram a força.

Barbosa acrescenta que a Constituição de 1946 foi a mais democrática do Brasil até então. Ele explica:

— A Segunda Guerra Mundial chegou ao fim, em 1945, com a vitória dos representantes da democracia, como os Estados Unidos, e a derrota das ditaduras de direita, como a Alemanha nazista e a Itália fascista. Cresceu, no mundo e no Brasil, um clima de valorização da liberdade do ser humano e das conquistas civilizatórias. Nesse novo ambiente, a ditadura de Vargas se tornou insustentável e chegou ao fim. Foi nesse clima de repúdio à ditadura que a Constituição de 1946 fortaleceu as instituições políticas do país, inclusive o Senado.

A Constituição de 1946, que reforçou os mecanismos democráticos do país, foi promulgada após a queda da ditadura de Getúlio Vargas Agência Nacional/Arquivo Nacional

Justamente nessa época pós-Estado Novo, os brasileiros passaram a acompanhar em massa as atividades políticas, inclusive as do Senado. Segundo o Barbosa, isso foi resultado de três fatores:

  • A intensa urbanização do país, já que nas cidades o ambiente é mais propício para as discussões políticas que na zona rural
  • O surgimento e a inserção institucional do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que, tendo como bandeira a defesa dos trabalhadores, conseguia mobilizar esse segmento
  • A disseminação do rádio, que, com mais alcance do que o jornal, permitiu que as notícias do mundo político chegassem a praticamente todo o país

— Eu defino o período democrático inaugurado pela Constituição 1946 como simultaneamente liberal e conservador. Foi conservador sob o ponto de vista socioeconômico, mas muito liberal em termos políticos. Esse período foi um renascer da política, do Poder Legislativo e, dentro dele, do próprio Senado, que voltou a ganhar relevância — destaca Barbosa.

Para o professor, a estrutura desenhada há 80 anos foi tão consistente que suas linhas mestras permanecem vigentes ainda hoje.

— Quando comparamos a Constituição de 1946 com a atual, de 1988, ambas surgidas após períodos ditatoriais, encontramos muitas semelhanças tanto no espírito democrático geral quanto nas atribuições específicas do Senado — ele observa.

Gestão

O ressurgimento do Senado não se limitou às atribuições previstas na Constituição de 1946. Ao nascer de novo naquele ano, a Casa tinha uma nova espinha dorsal institucional. Isso ocorreu com a nomeação dos servidores Isaac Brown para liderar a assessoria técnico-legislativa da Mesa Diretora e Júlio Barbosa para cuidar da administração burocrática do Senado como órgão público.

O trabalho de Brown deu origem à Secretaria-Geral da Mesa (SGM); o de Barbosa, à atual Diretoria-Geral (DGer). Neste ano, portanto, o Senado comemora os 80 anos dos dois órgãos. Embora não sejam conhecidos do grande público, são essenciais para o adequado funcionamento do Senado e das atividades parlamentares.

A SGM auxilia os integrantes da Mesa Diretora do Senado, em especial o presidente, na condução das sessões plenárias, para que os projetos de lei sejam discutidos, modificados e votados em conformidade com o regimento interno e a Constituição. O objetivo é garantir que a vontade da maioria prevaleça e, ao mesmo tempo, a minoria tenha voz.

— A SGM é voltada para a atividade-fim do Senado, que é o processo legislativo. Sua responsabilidade, portanto, é contribuir com a própria democracia brasileira — explica o atual secretário-geral da Mesa, Danilo Aguiar. Ele assumiu em 2025, e é o décimo titular do cargo.

Secretários-Gerais da Mesa do Senado

Nome Período
Isaac Brown 1946-1967
Sarah Abrahão 1967-1980
Nerione Cardoso 1980-1990
Guido Carvalho 1991-1992
Sara Figueiredo 1993-1994
Raimundo Carreiro 1995-2007
Cláudia Lyra 2007-2014
Luiz Fernando Bandeira de Mello 2014-2021
Gustavo Afonso Sabóia Vieira 2021-2025
Danilo Aguiar 2025-hoje

Foi por iniciativa da SGM que, em 2020, no início da pandemia de covid-19, o Senado brasileiro foi a primeira casa legislativa do mundo a adotar um sistema on-line que permitiu que os parlamentares discutissem e votassem os projetos de forma remota. O aplicativo foi desenvolvido pelos servidores da própria Casa.

Servidores da Secretaria-Geral da Mesa e da Diretoria-Geral são fundamentais para o funcionamento do Senado Jonas Pereira/Agência Senado

A DGer, por sua vez, é o órgão encarregado da gestão administrativa, financeira, de pessoal e de infraestrutura da instituição. Fazem parte da sua estrutura departamentos como o Arquivo, a Biblioteca, a Gráfica e a Polícia do Senado.

— Se o Senado presta hoje um excelente serviço à sociedade, isso se deve também à experiência do seu corpo de servidores. Afinal, 80 anos não são 80 dias — diz a diretora-geral, Ilana Trombka, que está no cargo desde 2015.

Diretores-Gerais do Senado

Nome Período
Júlio Barbosa 1946-1953
Luiz Nabuco 1954-1960
Evandro Vianna 1960-1977
Aiman Nogueira da Gama 1977-1985
Lourival dos Santos 1985-1987
José Passos Porto 1987-1991
Manoel Vilela de Magalhães 1991-1995
Alexandre de Paula Dupeyrat 1995
Agaciel Maia 1995-2009
José Alexandre Gazineo 2009
Haroldo Tajra 2009-2011
Doris Marize Romariz Peixoto 2011-2013
Antônio Helder Rebouças 2013-2014
Luiz Fernando Bandeira de Mello 2014-2015
Ilana Trombka 2015-hoje

Danilo Aguiar, secretário-geral da Mesa do Senado, e Ilana Trombka, diretora-geral da Casa Geraldo Magela/Agência Senado e Jean Copetti/Senado Federal

Reportagem: Ricardo Westin
Edição: Guilherme Oliveira
Edição de imagens e multimídia: Bernardo Ururahy
Foto de capa: Marcos Oliveira/Agência Senado