Morte de Rio Branco fez Brasil ter dois Carnavais em 1912

Ricardo Westin | 11/03/2019, 15h44

Os foliões nunca se esbaldaram tanto quanto em 1912. Nesse ano, o Brasil teve dois Carnavais. O primeiro foi em fevereiro, seguindo o calendário regulamentar. A festança se repetiu em abril, com outros cinco dias de fantasia, confete e serpentina.

As origens do Carnaval em dobro em 1912 estão, paradoxalmente, na morte de um herói nacional. O Barão do Rio Branco, que era o ministro das Relações Exteriores havia quase uma década, morreu em 10 de fevereiro, um sábado, quando faltava uma semana para o Carnaval. Ele tinha 66 anos e foi vítima de insuficiência renal.

O Brasil caiu em luto. No Rio de Janeiro, então capital da República, uma multidão chorosa fez fila no Palácio do Itamaraty para o velório e acompanhou o caixão até o Cemitério do Caju, onde Rio Branco foi enterrado com honras de chefe de Estado.

Dada a comoção generalizada, os clubes do país que organizavam bailes à fantasia, em especial os do Rio, acharam que seria desrespeitoso promover a esbórnia em pleno período de luto. Por isso, decidiram cancelar os bailes em cima da hora e remarcá-los para a semana da Páscoa.

Lança-perfume

O problema é que, para os foliões mais afoitos, um mês e meio seria uma espera longa e torturante demais. Quando chegou o sábado de Carnaval, eles concluíram que uma semana de luto por Rio Branco já tinha sido suficiente. Vestiram fantasias e foram para as ruas munidos de confete, serpentina e lança-perfume (que só seria proibido em 1961, pelo presidente Jânio Quadros).

Passada a Quaresma, veio a segunda rodada de festejos. No Carnaval-bônus, a gandaia foi mais diversificada do que no primeiro. Os foliões puderam se divertir tanto nas guerras de confetes nas ruas quanto nos bailes de máscaras nos clubes.

Herói nacional

Apesar de não ter funcionado, a ideia de adiar o Carnaval por causa da morte de Rio Branco não chegava a ser descabida. Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado mostram que, de fato, o Barão do Rio Branco tinha o status de herói.

Em 1904, quando ele já era ministro, os senadores e os deputados aprovaram um projeto de lei que lhe concedeu uma pensão vitalícia de dois contos de réis mensais pelo “reconhecimento aos involvidáveis serviços prestados ao país”.

O então senador Arthur de Souza Lemos (PA), num relatório de 1910 a respeito de um tratado entre o Brasil e o Uruguai negociado por Rio Branco, classificou o ministro de “legendário” e destacou o seu “tato delicadíssimo” nas negociações internacionais.

O grande feito de Rio Branco foi ter concluído o traçado das fronteiras do Brasil, que ainda tinha linhas nebulosas e pendentes. Antes de ser ministro, apenas como diplomata, ele atuou nas arbitragens internacionais que garantiram ao país o oeste de Santa Catarina (disputado com a Argentina), em 1895, e a área que compreende o Amapá, Roraima e o norte do Pará e do Amazonas (disputada com a França), em 1900.

Incorporação do Acre

Graças ao sucesso nas duas missões, Rio Branco se tornou ministros das Relações Exteriores em 1902. Logo viria outro êxito. Em 1903, após intensas negociações, assinou com a Bolívia o Tratado de Petrópolis, que incorporou o Acre ao território nacional.

De acordo com o historiador e diplomata Luís Cláudio Villafañe G. Santos, autor da biografia Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco (editora Companhia das Letras), não é exagero considerá-lo herói:

— Se juntarmos todas as áreas que Rio Branco ganhou para o Brasil, teremos um território equivalente a toda a Região Sul mais o estado de Pernambuco. Não é pouca coisa. Além disso, é preciso lembrar que, na disputa com os franceses, o pleito deles era chegar até o Rio Amazonas. Foi graças a Rio Branco que isso não aconteceu.

Quase presidenciável

Dado o seu prestígio, ele foi convidado pelos caciques políticos de São Paulo para concorrer à Presidência da República em 1910, mas não aceitou. Em seu lugar, entrou Ruy Barbosa, que foi derrotado pelo marechal Hermes da Fonseca.

O Barão do Rio Branco vinha de uma família influente na política do Império. Seu pai era o Visconde do Rio Branco, o primeiro-ministro de dom Pedro II que coordenou a aprovação da Lei do Ventre Livre (1871).

Segundo documentos do Arquivo do Senado, o senador Quintino Bocayuva (RJ) fez um discurso em maio de 1912 homenageando o recém-finado ministro das Relações Exteriores:

— Rio Branco foi, durante sua vida e depois de sua morte, a mais alta e a mais gloriosa representação da nacionalidade brasileira e um símbolo venerado do mais puro acendrado patriotismo. Seu nome ficou indelevelmente gravado no bronze de nossa história pátria.

Na Mensagem Presidencial que enviou ao Congresso na abertura do ano legislativo de 1912, também em maio, o marechal Hermes da Fonseca lamentou a perda:

“Todas as homenagens são devidas à memória do integrador do território pátrio. O meu governo a ele prestou, no momento dos seus funerais, todas as honras que podia, certo de que, por maiores que elas fossem, ainda seriam poucas em comparação aos excelsos serviços prestados ao país pelo incomparável extinto”.

Meses depois, o Senado e a Câmara autorizaram o governo federal a gastar 1,5 mil contos de réis na construção de um monumento em homenagem ao ministro.

Três Carnavais

No Rio, o grande ponto de concentração do primeiro Carnaval de 1912 foi a Avenida Central. No segundo Carnaval daquele ano, a multidão voltou a se reunir na mesma via, rebatizada pela prefeitura de Avenida Rio Branco. Nos festejos derradeiros de 1912, um grupo de cariocas gaiatos saiu com a seguinte marchinha: “Com a morte do barão,/tivemos dois Carnavá./Ai, que bom,/ai, que gostoso/ se morresse o marechá”.

O raciocínio era bem simples: na hipótese do presidente morrer, 1912 teria três Carnavais.

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