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Morto há 50 anos, JK foi senador por acordo e acabou cassado pela ditadura

Ricardo Westin
Publicado em 7/8/2026
Edição 136
Política

Na história do Senado, poucos parlamentares ouviram tantos elogios rasgados dos colegas no Plenário quanto o pouco conhecido Taciano de Melo (PSD-GO) naquela sessão em 10 de janeiro de 1961. O senador renunciava ao posto, após dois anos de mandato, para tornar-se ministro do recém-criado Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF).

O senador Mendonça Clark (PR-PI) afirmou “lamentar sinceramente a saída” de Melo. Segundo Francisco Galotti (PSD-SC), ele deixaria uma “recordação perene”. Alô Guimarães (PSD-PR) chamou o companheiro de “homem de fibra e dignidade”. O vice-presidente do Senado, Auro de Moura Andrade (PSD-SP), o descreveu como “patriota profundamente dedicado aos seus deveres mais recônditos, aqueles mais escondidos, mais íntimos, deveres de consciência”.

A profusão de aplausos, na realidade, não decorreu das virtudes do senador, mas de sua decisiva participação numa manobra para beneficiar o então presidente da República, Juscelino Kubitschek. Melo abriria mão do mandato para ser ocupado por JK, que deixaria a Presidência dali a três semanas.

Um dos últimos atos do presidente foi dar a Melo um assento no Tribunal de Contas da nova capital, retirando-o do Senado. O suplente, Sócrates Diniz (PSD), havia falecido no ano anterior. Com a renúncia, a população de Goiás seria convocada para uma eleição extraordinária em 1961, com JK na disputa. Ele, de fato, seria eleito senador.

Esse é um dos episódios menos conhecidos da carreira de JK. Neste mês, a morte do presidente completa 50 anos. Ele foi vítima de um acidente de carro na Rodovia Presidente Dutra, no caminho de São Paulo para o Rio de Janeiro, em 22 de agosto de 1976.

Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que o arranjo político que levaria JK ao Senado não era segredo. Vivaldo Lima (PTB-AM), dirigindo-se a Taciano de Melo, discursou:

— Vossa Excelência, renunciando ao mandato de senador, que conta mais seis anos, priva a nação dos grandes serviços que poderia esperar de Vossa Excelência. Adotando, porém, esse gesto altamente dignificante, Vossa Excelência se sacrifica para que o presidente da República, ao findar seu governo, venha fazer parte desta Casa, a fim de que, daqui, aprecie um dos monumentos de sua obra administrativa [Brasília].

O próprio Melo admitiu a manobra:

— Quero deixar o testemunho perante Cristo de que o ensejo que estou dando ao grande presidente para assumir uma cadeira no Senado da República é para que Sua Excelência continue no objetivo de conduzir nosso país a seus destinos gloriosos.

Reportagens do Diário de Notícias mostram a manobra que levou JK ao Senado em 1961 (Biblioteca Nacional Digital)

Embora tenha sido governador de Minas Gerais, prefeito de Belo Horizonte e deputado federal por sua terra, JK optou por Goiás por dois motivos: não encontrou senador mineiro disposto a renunciar e desfrutava de grande prestígio entre os goianos, já que a construção de Brasília favoreceu diretamente o estado. O senador Coimbra Bueno (UDN-GO) explicou:

— Pela vontade dos homens beneficiados do ex-sertão [a área de Goiás onde se construiu o novo Distrito Federal], iremos certamente apoiar [na eleição para o Senado] o presidente da República, que rasgou o nosso grande território de grandes rodovias de primeira classe e trouxe a presença do governo federal a esta ex-terra de ninguém, até recentemente abandonada pelos homens do litoral.

No Diário de Notícias, o colunista político Hélio Fernandes escreveu que o presidente negociou a candidatura ao Senado com os maiores líderes de Goiás. O governador eleito Mauro Borges (PSD) e o senador Pedro Ludovico, presidente do PSD estadual, foram incluídos em missões oficiais do governo brasileiro no exterior, e o deputado Domingos Velasco (PTB) se tornou ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST).

JK contou inclusive com o apoio da UDN de Goiás, cortejando Coimbra Bueno, que presidia a legenda no estado, e o deputado Emival Caiado. O partido era adversário irreconciliável do presidente, que pertencia ao PSD. A inusitada aliança provocou uma crise entre a UDN goiana e a UDN nacional, que não desejava ver JK no Senado.

Os inimigos do presidente não ficaram calados e disseram que se tratava de uma artimanha inaceitável. Os aliados reagiram.

— O senhor Juscelino Kubitschek quer se fazer senador por Goiás afastando do Senado e dando uma “propina” administrativa a um colega nosso — denunciou Lourival Fontes (PTB-SE).

— Se o senhor Juscelino Kubitschek tivesse feito pelo Maranhão um décimo do que fez por Goiás, eu não teria dúvida em entregar o meu mandato para que Sua Excelência fosse eleito senador — defendeu Vitorino Freire (PSD-MA).

— Mas Vossa Excelência renunciaria trocando-o por outro cargo? — questionou Fontes.

— Essa questão é de foro íntimo. Eu não aceitaria porque já tenho o meu lugar no serviço público, no Ministério da Saúde. É humilde, mas o obtive por concurso — respondeu Freire.

— Acho que não se insere na tradição goiana consentir em uma acomodação dessa natureza. Na minha opinião e na da maioria dos companheiros da UDN, Sua Excelência [JK] praticou ato incorreto, para não dizer imoral — avaliou Afonso Arinos (UDN-Guanabara).

— Não apoiado! Quando o marechal Eurico Dutra deixou a Presidência da República, pus à disposição de Sua Excelência meu lugar no Senado, disposto que estava a renunciar para possibilitar a eleição de quem tantos serviços prestou ao Maranhão — reagiu Vitorino.

Em 1963, o senador JK faz campanha para se eleger presidente pela segunda vez (Última Hora/Arquivo Público do Estado de São Paulo)

Antes mesmo de sair do Palácio do Planalto, JK já estava de olho na eleição presidencial de 1965, para a sucessão de Jânio Quadros. Ele só não participou da disputa de 1960 porque a Constituição não permitia a reeleição. O Senado era importante nos planos de JK porque o manteria em evidência até a eleição.

O político mineiro ainda teria à sua disposição a tribuna do Parlamento para se defender dos ataques de Jânio, que o acusaria de deixar um governo falido e corrupto. O senador Lino de Matos (PSP-SP) discursou:

— O impacto de milhões de votos [em Jânio] fulminou de maneira inexorável o governo [de JK] que fizera da inflação fiduciária e do “descritério” nos planos da industrialização a pedra básica do seu plano desenvolvimentista. Nada vai isentar o ilustre senhor Juscelino Kubitschek da culpa imensa de haver passado às mãos do presidente Jânio Quadros a tarefa árdua, porque quase super-humana, de realizar a renovação da República imposta pelo povo brasileiro.

Os parlamentares também ponderaram que, como senador, JK ficaria numa posição mais confortável para enfrentar as investigações que devassariam seus cinco anos de governo.

— Quer o senhor Jânio Quadros, no momento em que o ex-presidente vai-se candidatar a senador da República, abalar-lhe o prestígio. Com ou sem fundamento, manda instaurar esses inquéritos — avaliou Lima Teixeira (PTB-BA), aliado de JK.

— Quando aceitou sua candidatura a senador por Goiás, o senhor Juscelino Kubitschek não o fez senão para se acobertar com as imunidades parlamentares — acusou Aloysio de Carvalho (UDN-BA).

Em 31 de janeiro de 1961, JK transmitiu a faixa presidencial a Jânio e viajou para a Europa para uma temporada de descanso. Retornou em 5 de maio e logo deu início à campanha para o Senado. Percorreu Goiás inteiro discursando em comícios e fazendo corpo a corpo com o eleitorado.

Os goianos foram às urnas em 4 de junho. JK venceu com facilidade, com 84,5% dos votos, derrotando o deputado federal Wagner Estelita (PDC), candidato de Jânio.

Em 12 de julho, o ex-presidente percorreu a estrada entre Goiânia e Brasília escoltado por um festivo cortejo de 300 carros, segundo os cálculos do Jornal do Brasil, e foi recepcionado pela população da capital federal com faixas com o slogan “JK-65”. No Senado, uma pequena multidão assistiu à posse.

Os presidentes Juscelino Kubitschek (1956-1961), Jânio Quadros (1961), João Goulart (1961-1964) e Humberto Castelo Branco (1964-1967) (Governo do Brasil)

Ali, no primeiro discurso como senador, JK defendeu seu legado de presidente:

— Creio ter andado de acordo com o supremo interesse da nacionalidade emitindo não dinheiros, mas 20 mil quilômetros de estradas, 320 mil veículos automotores, 1,3 milhão de toneladas a mais de aço em lingotes, mais de 2 milhões de toneladas de cimento; emitindo volume incomparavelmente maior de petróleo, fertilizantes, metais não ferrosos; emitindo Furnas, Três Marias, a indústria pesada, a naval, a de tratores, a química de base; emitindo, enfim, a infraestrutura que marca o início da era de nossa soberania econômica.

Ele rebateu as acusações de ter deixado uma herança maldita para Jânio Quadros:

— Não tivesse assumido tantos riscos e, transcorridos os cinco anos de meu governo, não teria a compensadora oportunidade, que agradeço à Providência, de passar ao meu sucessor não um país decadente ou falido, mas uma nação em marcha integrada na sua finalidade de tornar-se uma nação desentrevada, com perspectivas magníficas pela frente, nação restabelecida na confiança internacional pelas demonstrações de vitalidade que ofereceu ao mundo.

O senador ainda apresentou as razões que o levaram a buscar um lugar do Poder Legislativo:

— Devo aos meus amigos de Goiás aquilo de que mais precisava nesta hora de minha vida pública: esta tribuna livre do Senado, de onde me será facultado explicar-me sempre que necessário e defender os princípios que, no meu entender, estão ligados ao destino nacional. Não me movesse a intenção de lutar pelo que julgo de capital importância para a nossa pátria, teria cedido à tentação de dar por encerrada a minha vida pública. Se aqui estou a falar-lhes, é porque me convenci de não ter soado ainda a hora de tornar-me simples espectador de nossa vida republicana.

O segundo pronunciamento foi feito no mês seguinte, em meio à crise política desencadeada pela renúncia do presidente Jânio Quadros. JK defendeu que o vice-presidente, João Goulart, assumisse a Presidência da República, em conformidade com a Constituição, contrariando a cúpula das Forças Armadas, que se movimentava para impedir a posse de Jango e dar um golpe de Estado.

— O que me traz a esta tribuna é a imperiosa necessidade de dirigir um apelo aos ilustres chefes militares no sentido de que não contrariem a opinião nacional, que exige a posse do presidente senhor João Goulart, sucessor, pela vontade do povo no último pleito, do presidente renunciante. Não são apenas os partidários do senhor João Goulart que se batem por sua posse. Muitos dos seus próprios adversários, alguns até ontem encarniçados, não hesitam hoje em pugnar pela obediência à lei. Ao senhor João Goulart só animam desejos de pacificar o nosso Brasil, de governar de acordo e em respeito aos sentimentos da nacionalidade, que são cristãos e profundamente democráticos — discursou JK. 

Após tensas negociações, a crise foi resolvida com a adoção do parlamentarismo. João Goulart assumiu a Presidência, mas com poderes reduzidos. Quem passou a governar de fato foi o primeiro-ministro Tancredo Neves.

Vigília cívica, em junho de 1964, contra a cassação do senador Juscelino Kubistschek (Última Hora/Arquivo Público do Estado de São Paulo)

Enquanto foi senador, JK esteve mais preocupado com as negociações para a volta do presidencialismo (o que ocorreria em 1963) e as alianças para a eleição presidencial de 1965. Os papéis do Arquivo do Senado revelam que ele frequentou poucas sessões e não apresentou nenhum projeto de lei. Ao longo de todo o mandato, fez apenas três discursos no Senado, incluindo os da posse e da crise da renúncia.

Nas páginas dos jornais, ao contrário, o ex-presidente foi presença constante. Numa sessão em 1962, os senadores discutiram uma entrevista dele ao Jornal do Brasil em que acusou o Congresso Nacional de não trabalhar, retardando a aprovação da reforma agrária, de novas regras para o capital estrangeiro e da liberação do voto dos analfabetos.

Muitos senadores se disseram ofendidos. Um deles foi Caiado de Castro (PTB-Guanabara), que afirmou:

— O nobre senador Juscelino Kubitschek não tem vindo ao Senado. Nesse caso, não somos nós que não trabalhamos. Se há alguém que não trabalha, é o ex-presidente.

Em tom irônico, Aloysio de Carvalho observou que JK talvez considerasse um trabalho menor, para quem já foi presidente da República, redigir pareceres nas comissões temáticas do Senado. Acrescentou:

— O que depreendo da posição omissiva do senador Juscelino Kubitschek é que, no fundo, Sua Excelência tem um grande desprezo pelo Parlamento.

Citando a crescente pressão do funcionalismo público e da elite carioca para que Brasília fosse abandonada e a capital federal voltasse para o Rio de Janeiro, o senador Guido Mondin (PRP-RS) também criticou JK:

— Se aqueles que construíram Brasília aqui não permanecem, como é o caso do nosso mui nobre colega senador Juscelino Kubitschek, que deveria estar aqui nos acompanhando nesta luta em defesa de Brasília, sua obra, unamo-nos então nós, homens do Parlamento, homens do povo, todos enfim, no sentido de que essas tentativas não encontrem eco.

No quesito assiduidade, os aliados de JK não tiveram como defendê-lo. O senador Lima Teixeira precisou admitir:

— Reconheço que o senhor Juscelino Kubitschek não tem predileção pelo Congresso. Falta a Sua Excelência entusiasmo pelo Legislativo. Não se pode negar que é um homem de trabalho, capaz e atuante, mas sua vocação é o Executivo. E, por isso mesmo, como senador, não procurou até agora contato mais direto com o Parlamento. Sua colaboração nos trabalhos do Senado seria realmente muito valiosa. Pela sua experiência, pela sua competência, pela sua cultura, seria uma voz das mais autorizadas nesta Casa.

Em 21 de março de 1964, faltando um ano e meio para a eleição presidencial, o PSD lançou a candidatura de JK ao Palácio do Planalto. Na convenção partidária, no Rio de Janeiro, o senador anunciou que uma das prioridades de seu segundo governo seria a reforma agrária. O slogan de campanha já estava pronto: “5 anos de agricultura para 50 anos de fartura”.

Ele procurou acalmar aqueles que consideravam a medida radical:

— Ficarão afastados dois riscos: as desapropriações desordenadas, inspiradas às vezes por critérios políticos; e a injusta extensão a quem vem produzindo. É uma medida só justificável quando a propriedade, por falta de cultivo, deixa de contribuir para a riqueza do país. Tranquilize-se o fazendeiro, tranquilize-se o proprietário, tranquilize-se o trabalhador rural, tranquilizem-se, enfim, todos os brasileiros. Um governo reformista não quer dizer um governo ameaçador e subversivo, sobretudo quando se consideram o passado do candidato e a sua fidelidade aos ideais democráticos jamais traída.

Os planos duraram pouco. Alguns dias depois, na virada de 31 de março para 1º de abril, os militares deram o golpe de Estado que derrubou o presidente João Goulart e instalou a ditadura.

Jornal Última Hora noticia a cassação do senador JK, em junho de 1964 (Biblioteca Nacional Digital)

JK não condenou o golpe. Ao lado de outros líderes do PSD, o senador se reuniu com o general Humberto Castelo Branco, candidato das Forças Armadas para concluir o mandato de Goulart, a fim de entender os planos dos golpistas. Precisando dos votos do PSD, o general prometeu que, se fosse mesmo escolhido pelo Congresso, manteria a eleição presidencial de 1965 e devolveria o governo aos civis. O candidato a vice foi José Maria Alkmin, que pertencia ao PSD mineiro e era casado com uma prima de JK.

Tranquilizado, acreditando que o golpe não atrapalharia seu projeto político e que a normalidade democrática seria restaurada, o senador JK participou da eleição indireta, em 11 de abril de 1964, e votou em Castelo Branco, que se tornou o primeiro presidente da ditadura.

Logo, porém, surgiram rumores de que JK se tornaria mais um dos tantos políticos cassados pela ditadura. Em 3 de junho, ele subiu à tribuna do Senado para fazer seu terceiro e último pronunciamento na condição de senador. Ele discursou:

— Na previsão de que se confirme a cassação dos meus direitos políticos, julgo do meu dever dirigir algumas palavras à nação brasileira. Não sei exatamente do que me acusam. Só recolhi boatos e murmúrios de velhas histórias já desfeitas e desmoralizadas por contestações irretorquíveis. Pela própria mecânica do Ato Institucional, aos fulminados não é dado acesso às peças acusatórias. Já a nação vive sob os efeitos do terror.

Chamando o golpe e a ditadura de “revolução”, JK continuou:

— É a minha causa da defesa das instituições livres que me transforma em vítima da sanha liberticida que tenta manchar a revolução, feita para salvar-nos da tirania comunista. O golpe que na minha pessoa de ex-chefe de Estado querem desfechar atingirá a vida democrática, a vontade livre do povo. Não me estão ferindo pessoalmente, mas a todos que se julgam no direito de escolher a quem desejam para presidir o seu destino. Será um ato de traição às promessas da revolução, que oferecia uma oportunidade a todos os brasileiros de colaborarem na reconstrução do país.

Os rumores se confirmaram. Cinco dias depois daquele discurso, o presidente Castelo Branco assinou um decreto que cassou o mandato de JK e suspendeu seus direitos políticos por dez anos. Ele, que passou apenas três anos no Senado, partiu para o exílio.

O historiador Ronaldo Costa Couto, autor do livro biográfico JK (Edições Câmara), afirma que o presidente Castelo Branco não queria cassar o senador, mas acabou cedendo à pressão de seu ministro da Guerra, general Artur da Costa e Silva. Ele explica:

— Castelo Branco, na realidade, era grato a JK. Foi o antigo presidente que o promoveu a general. Essa promoção foi fundamental porque permitiu que Castelo Branco continuasse na ativa, evitando a transferência compulsória para a reserva. Em razão dessa gratidão histórica, existem fortes indícios de que não desejava cassar JK. No entanto, a pressão política nos bastidores liderada por Costa e Silva, que tinha o projeto pessoal de se tornar presidente da República, tornou a cassação inevitável.

De acordo com Costa Couto, muitos oficiais militares, como o ministro da Guerra, davam como certa uma nova vitória presidencial de JK, que aparecia nas pesquisas de opinião com mais de 60% das intenções de voto. O historiador continua:

— JK foi retirado do jogo político porque, para os militares que tomaram o poder, sua volta à Presidência equivaleria a uma revogação do próprio golpe. Eles o enxergavam como um getulista, à semelhança de João Goulart, e essa era uma corrente política que despertava forte rejeição em boa parte das Forças Armadas. Ao empunhar a bandeira da reforma agrária, a imagem de JK se aproximou ainda mais da de João Goulart, que a incluíra em suas prometidas Reformas de Base.

A oposição das Forças Armadas era tão forte que JK sofreu três tentativas de golpe militar: em 1955, quando tentaram impedir sua posse; em 1956, na Revolta de Jacareacanga; e em 1959, na Revolta de Aragarças.

O ex-presidente e ex-senador voltaria do exílio em 1967. No entanto, com o prolongamento arbitrário do regime ditatorial, nunca mais recuperaria o protagonismo nem ocuparia cargo político. O presidente Castelo Branco não cumpriu a promessa de permitir as eleições de 1965. O pleito, novamente indireto, ocorreu apenas em 1966 e o vitorioso foi Costa e Silva.

Ouça trechos do discurso do senador JK no Plenário em junho de 1964, às vésperas de ser cassado

A historiadora Ana Maria Cardoso Ribas, professora do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e autora de pesquisas de mestrado e doutorado sobre JK, afirma que ele foi arquiteto da própria sacralização:

— Em escritos autobiográficos, JK afirmou que seu governo transformou o Brasil em uma nação “politicamente adulta”. Essa versão consolidou a tríade que o marcou no imaginário social: líder da democracia, promotor do desenvolvimento e pacificador da nação.

A construção do mito, segundo Ribas, se apoiou na imagem do “menino humilde de Diamantina e órfão de pai” que conseguiu se tornar médico e presidente.

A imagem idealizada, explica ela, omitiu as contradições de JK, como ter aceitado cargos em contextos autoritários — foi chefe de gabinete do interventor de Minas Gerais, nos anos 1930, e prefeito de Belo Horizonte indicado na ditadura do Estado Novo, sem eleição, nos anos 1940 —, negociado sua entrada no Senado e apoiado o movimento político-militar que resultou na deposição de um presidente eleito democraticamente e na violação da Constituição. A historiadora continua:

— JK homologou a candidatura de Castelo Branco não só pelo desejo de eleições presidenciais em 1965, mas também porque via o golpe como “mal necessário” para salvar o país. Nos diários pessoais, revelou o mesmo temor anticomunista que permeava as elites conservadoras civis e militares. Escreveu que estava apavorado com o avanço do comunismo na França e que uma república sindicalista estaria em marcha no Brasil.

De acordo com Ribas, a sacralização cresceu após o golpe de 1964, reforçando uma narrativa unilateral do personagem político e do período histórico:

— Com a implantação e o recrudescimento da ditadura, os anos JK e a imagem do presidente como visionário foram superdimensionados. Seu governo passou a ser lembrado como os “anos dourados”, em contraste com os pesados anos do autoritarismo, marcados, por exemplo, por uma terraplanagem da arena política.

A redemocratização e efemérides como centenário de nascimento, em 2002, e o cinquentenário da posse, em 2006, trouxeram JK de volta ao cenário político como exemplo a ser seguido, lembra ela. A cassação, o exílio, a prisão [em 1968], a doença física e, por fim, o acidente automobilístico serviram para confirmar o mito.

Para a historiadora, quando JK é visto apenas como símbolo do progresso, aqueles “anos dourados” escondem o alto preço do desenvolvimento, que teria gerado aumento de desigualdades, exclusão social, inflação e crise no meio rural.

Além disso, prossegue ela, perde-se a chance de discutir criticamente os limites e as ambiguidades das escolhas políticas de JK, o que atrapalha pensar o futuro do Brasil de forma mais realista.


Reportagem: Ricardo Westin
Edição: Guilherme Oliveira
Pesquisa histórica: Bruna Estácio de Sousa, Danielle Alves, Maria Cecília Santos Oliveira e Vanessa Alves Costa Cabral, do Arquivo do Senado  
Edição de imagens e multimídia: Bernardo Ururahy 
Foto de capa: Senador Juscelino Kubitschek em março de 1962 (Correio da Manhã/Arquivo Nacional)