Ferramentas Pessoais
Acessar

Senado e Correio Braziliense debatem violência de gênero e mídia

03/12/2019 12:50

A senadora Zenaide Maia (PROS-RN), presidente da Comissão Mista de Combate à Violência Contra a Mulher, e a diretora-geral do Senado, Ilana Trombka, participaram do 1º Colóquio de Violência de Gênero e Mídia, realizado nesta quinta-feira (28). Parceria entre o Comitê Permanente de Promoção da Equidade de Gênero e Raça do Senado e o jornal Correio Braziliense, o evento faz parte da campanha de 16 dias pelo fim da violência contra a mulher, iniciada em 20 de novembro.

 

Na abertura, Ilana destacou os danos que a violência simbólica pode causar à vida das mulheres. De acordo com ela, muitas vezes esse tipo de violência passa despercebido porque as marcas deixadas não são visíveis, mas deixam reflexos na educação, na cultura e na hereditariedade.

 

— A violência simbólica é aquela que quer invisibilizar a mulher. Que quer que as mulheres não estejam nos locais de fala, de poder, nos eventos, não se faça presente, e que tenha condições, tanto quanto o homem, de falar, de poder ensinar e de poder transmitir.

 

Para a senadora Zenaide, informação representa poder e, por isso, apenas a punição não é suficiente no combate à violência contra as mulheres. É preciso, afirma, investir em educação. Segundo a parlamentar, a violência está presente em todas as classes sociais, mas entre as mulheres negras e as sem poder econômico os números são ainda mais alarmantes.

 

— Se para ter um teto, se alimentar ou estudar, você depende financeiramente de outra pessoa, você não é totalmente livre. Porque normalmente essa pessoa [responsável pelo sustento] vai te subjugar. A Lei Maria da Penha é considerada moderníssima, mas chama a atenção depois de 13 anos. Só punir não resolve. É preciso prevenir — disse.

 

A editora de Opinião do Correio Braziliense e consultora legislativa aposentada do Senado, Dad Squarisi, trouxe um histórico de como a submissão começou a ser imposta às mulheres. Segundo ela, os mitos das grandes religiões ajudaram a apresentar a mulher como portadora de maldades e, por isso, merecedora de punição.

 

— Não é de hoje que homem bate em mulher. Não é de hoje que homem mata mulher. Na Bíblia, a mulher era apedrejada até a morte. Na Idade Média, era jogada na fogueira. Assim é no mundo todo. A violência não tem a ver com riqueza, pobreza, desenvolvimento ou subdesenvolvimento. Ela ocorre nas sociedades mais avançadas do mundo.


Reprodução de estereótipos de gênero

No primeiro painel, mediado pela consultora legislativa do Senado Roberta Viegas, o tratamento dado às reportagens publicadas pelo Correio com essa temática foi o assunto apresentado pela coordenadora de produção da editoria de Cidades do veículo, Adriana Bernardes.

 

— É função da imprensa dar visibilidade a esse tema. Procuramos orientar as mulheres e mostrar a quem recorrer. Além disso, é importante que os homens estejam com as mulheres nessa luta pelo fim da violência doméstica. Porque em algum momento, se a gente não frear isso, estarão como vítimas suas filhas, mães, tias, irmãs. Ninguém quer isso e ninguém suporta isso mais — afirmou.

 

O papel da fotografia foi abordado pela professora e pesquisadora de técnicas fotográficas como divulgação e metodologia de estudo, Sinara Bertholdo. Por meio de exemplos e estudos, a especialista mostrou que o corpo feminino é retratado na fotografia publicitária como um estereótipo de consumo. Além disso, ela também chamou atenção para o fato de apenas 15% dos fotojornalistas do Brasil serem mulheres.

 

— Eu sou uma fotógrafa formada por homens. Quando a fotografia é feita no lugar de fala do outro, esse olhar é construído. O corpo feminino está muito ligado ao consumo. E, muitas vezes, esse corpo é violentado porque não atinge essa expectativa projetada.

 

Transformação

Isabel Clavelin, doutora em comunicação e assessora de comunicação da ONU Mulheres, destacou o papel da mídia na discussão de gênero. A transformação, disse, passa pela ordem política e econômica, que tem a responsabilidade de reger a vida das pessoas.

 

— É importante falar de racismo e nomeá-lo como tal. No mundo, esses conceitos estão em constante disputa. Há quem diga que não tem racismo no Brasil, que é uma invenção. Por isso, os números são essenciais.

 

Feminicídio e a culpabilização da vítima: problema da mídia?

No segundo painel, a consultora internacional em direito das mulheres Roberta Gregório falou sobre como o discurso da mídia pode incentivar a culpabilização da vítima ou mesmo a objetificação, seja ao glamorizar uma agressão ou hiperssexualizar o corpo da mulher.

 

— O desmembramento do corpo feminino é o primeiro passo para a violência contra as mulheres. Quantas propagandas têm só a perna ou só os seios — questionou.

 

Luciana Gomes, do Instituto Patrícia Galvão, salientou o compromisso que tanto os veículos de comunicação quanto o governo devem ter com a temática.

 

— É preciso que não sejam projetos temporais. A ausência de dados e políticas públicas de enfrentamento também são uma pauta jornalística. É preciso, no entanto, fazer de um jeito que não desestimule as mulheres a denunciar, problematizando de uma forma que a vítima se sinta numa rede de proteção.

 

Igualdade

Cleide Lemos, especialista em políticas públicas e gestão governamental, afirmou que o patriarcado nos “silencia, não permite que a gente ouça e nem que diga nada”. Outra questão que deve ser enfrentada é a disputa entre machismo e feminismo, já que o movimento feminista defende apenas a igualdade dos direitos.

 

— Não podemos fugir desses termos. Levantar a bandeira feminista é levantar a bandeira da igualdade. É preciso falar de gênero nas escolas e discutir os papéis sociais que são atribuídos a homens e mulheres na sociedade.

 

Fonte: Comunicação Interna