Participantes de audiência pública discutem soluções para educação de brasileiros no Japão

Da Redação | 14/06/2017, 19h46 - ATUALIZADO EM 14/06/2017, 20h25

Os obstáculos que filhos de brasileiros que residem no Japão enfrentam para se adaptar ao sistema educacional foram debatidos em audiência pública na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE), nesta quarta-feira (14). Segundo os participantes da audiência, a barreira da língua é um dos motivos que dificultam a integração das crianças e jovens às escolas japonesas. O resultado se revela em baixo aprendizado, atraso de nível e mesmo evasão escolar, além de desajustes emocionais e também situações de delinquência juvenil.

Uma das soluções discutidas envolve a criação de programa after school, de apoio e acompanhamento escolar no contraturno da escola japonesa regular, em que os monitores seriam estudantes de universidades brasileiras dos cursos de Letras/Língua Japonesa. A ideia é que eles cumpram a atividade no fim do curso, em turno oposto ao de estágio em universidades japonesas, como bolsistas de programa que dependeria de acordo entre os governos dos dois países. Também se estuda meios para a capacitação de creches destinadas a pequenos brasileiros.

O senador Cristovam Buarque (PPS-DF), que propôs a audiência, também dirigiu os trabalhos. Ele disse que tomou conhecimento da realidade escolar dos filhos de brasileiros durante viagem ao Japão. Observou que filhos de brasileiros que vão para Estados Unidos, América Latina e Europa imediatamente vão para as escolas, aprendem o idioma local e seguem os cursos sem dificuldades. Depois, lamentou o que se verifica no Japão, país com sistema educacional de alto padrão, mas com língua e cultura radicalmente diferentes.

— As escolas recebem com carinho, respeito e atenção esses filhos de imigrantes, mas a realidade é que as crianças não se adaptam. O resultado é que não ficam nem lá nem cá. Perdem as raízes brasileiras e não adquirem raízes no Japão — lamentou Cristovam.

Fluxo migratório

No Japão se localiza a quarta maior comunidade de brasileiros no exterior, formada atualmente por cerca de 180 mil pessoas. Quase sempre são descendentes dos japoneses que migraram para o Brasil no século passado. Eles decidiram fazer o caminho de volta dos pais e avós para fugir das crises econômicas brasileiras dos anos 80 e 90. No auge do fluxo migratório, chegaram a viver no Japão 300 mil brasileiros.

Segundo Carla Barroso Carneiro, assessora para assuntos internacionais do Ministério da Educação (MEC), a intenção da maioria era trabalhar por algum tempo, juntar dinheiro e voltar ao Brasil. A opção é colocar os filhos em escolas japoneses regulares, onde muitos não se adaptam, ou em escolas privadas criadas por brasileiros.  Hoje há uma rede com mais de 70 unidades, pouco mais de 30 reconhecidas pelo MEC.

Não se distinguindo pela qualidade, as escolas brasileiros quase sempre nasceram por iniciativa de dekasseguis — termo para designar "os que trabalham longe de casa". Sem formação na área educacional, eles veem na atividade uma oportunidade de negócio. Até as melhores se depreciaram ao longo do tempo, segundo Carla Carneiro. A opção pela escola japonesa envolve o desafio da adaptação e a frequente convivência com o fenômeno do bullying escolar.

— Essas crianças começam a ser objeto de bullying, vão ficando isoladas, existindo inclusive fenômeno preocupante que é o número de diagnóstico de autismo das crianças brasileiras muito acima da média, possivelmente porque elas não conseguem se integrar — destacou.

Para a Carla Carneiro, a mais promissora entre as iniciativas para fazer frente ao problema é a que envolve a formação de bolsistas no Japão, com aproveitamento desses estudantes como monitores no programa de apoio e complementação escolar, com foco na aprendizagem de japonês e Português. Hoje, informou a assessora, existem sete cursos de letras com japonês em universidades brasileiras, que disponibilizam por ano cerca de 150 formandos.

Itamaraty

Pelo Ministério das Relações Exteriores, participou do debate a diplomata Maria Luíza Lopes da Silva, que dirige o Departamento Consular e de Brasileiros no Exterior. Foram trazidos por ela os dados atuais de residentes no Japão, referentes a janeiro de 2017: quase 181 mil pessoas, exceto as que optaram por cidadania japonesa. Do total, quase 22,2 mil são menores de dez anos e pouco mais de 19,6 mil têm entre 11 e 19 anos incompletos. Ou seja, estão na fase de ensino regular obrigatório no Brasil, embora no Japão a educação para estrangeiros não seja compulsória.

No Japão, explicou Maria Luiza, os problemas são de fato mais acentuados, a começar pela carência de creches para a faixa de pré-escolares. Por isso, explicou os brasileiros acabam deixando os pequenos filhos em creches “caseiras”, também mantidas por conterrâneos. A questão é que, quando ingressam na escola regular, com 4 a 5 anos, elas ainda não estão falando Japonês.

Autismo

A convidada reconheceu que há de fato uma distorção no diagnóstico de autismo em crianças brasileiras, na faixa de 6,15%, quando a taxa não passa de 1,8% entre as japonesas. Disse que a rede consular está acompanhando a questão, a seu ver decorrente de registros “equivocados ou precipitados”, feitos por profissionais que não sabem lidar com crianças de  cultura diferente

— As consequências podem ser gravíssimas, como oferecer sala especial para essas crianças. Será a profecia que se realizará, pois ali vão diminuir os desafios para que elas possam superar suas dificuldades — comentou.

Para a convidada, com um mínimo apoio governamental será possível montar um programa de apoio regular para educar a próxima geração de brasileiros no Japão. Entre as demandas, ele aponta a capacitação das creches, campanhas de conscientização dos pais sobre a necessidade de se frequentar escola e impedir a evasão escolar, avaliações periódicas das escolas brasileiras pelo MEC e a implementação do programa after school, com verbas orçamentárias.

Para a educação de brasileiros no exterior, de modo geral, citou ainda a necessidade de inserção específica de previsão na lei do Plano Nacional de Educação, além de suporte para ações de educação continuada e a distância.

Grupos fechados

Participou também da audiência Kilton José Oliveira Rocha, hoje assessor parlamentar, que residiu 17 anos no Japão, incluindo período de estudos com bolsista do governo desse país e de atuação como professor universitário. Segundo, contribui para a exclusão dos dekasseguis o fato de constituírem grupos isolados, formado apenas por brasileiros ou por latinos.

Sobre as escolas particulares brasileiras no Japão, de ensino fundamental, ele comentou que cobram muito caro em comparação com a qualidade do ensino ofertado. As mensalidades chegam 50 mil ienes, o equivalente a mais de R$ 1,5 mil. Citou estudo sobre situação de 23 ex-alunos de uma dessas escolas, mostrando que quatro voltaram ao Brasil, 17 trabalham em fábricas no Japão, um continua estudando no Japão e outro deles, ainda residindo no Japão, nem estuda nem trabalha.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)