Mamografias fora da idade recomendada devem ser feitas com moderação, dizem médicos

Elina Rodrigues Pozzebom e Marilia Coêlho | 16/10/2014, 15h39 - ATUALIZADO EM 11/09/2015, 17h03

A qualidade da informação e a prevenção do câncer de mama por meio de mamografias foram discutidos, nesta quinta-feira (16), em audiência pública sobre o Outubro Rosa, realizada no âmbito do programa Quintas Femininas, da Procuradoria Especial da Mulher no Senado.

A moderação na frequência do exame na faixa etária abaixo da recomendada pelo Ministério da Saúde, que é de 50 a 69 anos, foi uma das orientações dadas pelos profissionais que participaram do debate. A participação de especialistas mostrou que, se há consenso entre os gestores de saúde e as sociedades médicas sobre a eficácia da realização de exames periódicos em mulheres que pertencem ao grupo de 50 a 69 anos de idade, o mesmo não acontece em relação ao grupo de 40 a 59 anos.

De acordo com a médica Carolina Fuschino, da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), os malefícios do exame são maiores para as mulheres mais jovens e a redução de risco de mortalidade é muito menor.

— Nós temos variação na literatura de 8% a 15% de ganho e alguns mostram que não existe ganho estatisticamente significativo nesse grupo. Os efeitos maléficos da mamografia são maiores nesse grupo, porque vc tem um maior índice de falso-positivo, ou seja, você vê mais coisa que você suspeita na mamografia. Essas pacientes vão estar mais submetidas a biopsias desnecessárias, têm uma maior reconvocação, maior índice de stresse. E vc vai precisar rastrear um número muito maior de pacientes para ter um impacto de evitar uma morte, quase três vezes mais do que na faixa de idade de 50 a 69 anos.

Carolina Fuschino explica, no entanto, a razão de as associações médicas e entidades não-governamentais estimularem o exame entre as pacientes mais jovens:

— A gente sabe que quase um quarto das mulheres que vão apresentar câncer de mama estão nessa faixa de idade. Por isso a gente mantém essa recomendação.

Os especialistas também abordaram o que é chamado de overdiagnóstic, ou sobrediagnóstico. De acordo com Arn Migowski, sanitarista, epidemiologista, tecnologista da Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede do Instituto Nacional de Câncer (Inca), muitos dos casos detectados num estágio bem inicial poderiam nem mesmo ter se desenvolvido e se tornado câncer. Além disso, pesquisas demonstram que, mesmo com o crescimento do diagnóstico precoce de tumores nas mamas, a sobrevida das mulheres não aumentou significativamente.

Os dois médicos mencionaram um estudo canadense que acompanhou por 25 anos grupos de mulheres que se submeteram ao rastreamento por mamografia e outras que fizeram apenas o exame físico. A sobrevida, o tempo de vida e o risco de morte nos dois grupos foram idênticos, não houve diferença estatística importante. Apesar de o estudo ter sido considerado uma “bomba” na postura terapêutica adotada até então, Carolina Fuschino salientou que a realidade canadense não pode ser transportada para outros países.

— No Canadá, um mês depois de detectado o tumor, a paciente já está em tratamento. No Brasil não conseguimos nem rastrear — registra.

Ambos os médicos também refutaram a ideia de que o rastreamento se tornou inútil e concordaram que ele deve ser realizado após debate com o profissional médico, considerando malefícios e benefícios. Eles insistiram que a educação, a percepção corporal e uma vida saudável, com alimentação equilibrada, são essenciais para a saúde da mulher.

Tirania do rosa

A ativista Lilian Marinho, da Rede Feminista de Saúde, Diretos Sexuais e Reprodutivos, acusou a construção, por todo o Brasil, de uma “tirania do rosa”, com a iluminação de monumentos em várias cidades em alusão ao chamado Outubro Rosa e a imposição de um “véu da alegria” que acaba mascarando as verdadeiras necessidades: o fim da desinformação e o incremento da comunicação; e a atuação rápida nos casos diagnosticados de câncer de mama e colo de útero, pois o tempo é a melhor arma para o tratamento. Segundo disse, o Estado brasileiro não pode somente lançar uma suspeita de câncer sobre uma mulher sem garantir a ela continuidade e rapidez no tratamento em caso de diagnóstico positivo.

— Queremos que com o Outubro Rosa [a atenção] se estenda, para que se garanta a essas mulheres o que vem depois, tratamento e acompanhamento — propõe.

Apesar de elogiar a campanha, que semeia a necessidade do cuidado, Lilian criticou os problemas de comunicação entre a população-alvo e as entidades e profissionais da área de saúde envolvidos com o tema. Algumas mulheres na faixa de 40 anos, por exemplo, exigem o direito assegurado em lei de fazer a mamografia preventiva, mas o Sistema Único de Saúde (SUS) mal consegue garantir o procedimento à faixa etária prioritária, dos 50 aos 69 anos, observa.

Além disso, ela aponta falta de infraestrutura como a existência de poucos laboratórios de alto risco para câncer, a lentidão na continuidade do tratamento e interesses econômicos e da indústria de medicamentos e de aparelhos — que levam a discussões sobre qual mamógrafo é melhor, analógico ou o digital, quando há lugares sem nenhuma opção — como fatores que lesam o direito de cada mulher ser tratada e, em casos extremos e não mais tratáveis, de ter uma sobrevida digna, sem dor e sofrimento.

Lilian Marinho também cita fatores como as desigualdades regionais, a falta de atenção a grupos específicos como presidiárias, albinas e moradoras de rua como problemas para a universalização do atendimento.

Assim como Lilian Marinho, Carolina Fuschino também aponta a falta de comunicação, de uma relação próxima e com empatia entre médico e paciente e de informação de qualidade como entraves ao diagnóstico e tratamento do câncer de mama e de colo de útero.

— No Brasil, não temos um estudo que mostre como está se dando, na prática clínica, a transmissão do conhecimento para o paciente, para ajudar na decisão do tratamento e do rastreamento. A comunicação é muito difícil — lamenta.

Ela cita que a ausência de informação é tanta que o Outubro Rosa pode passar até mesmo uma mensagem equivocada, de que a mamografia evita o câncer de mama, como se fosse uma vacina, em vez de somente detectá-lo precocemente.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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