Fibra de Cora Coralina é lembrada como exemplo em sessão no Senado nesta terça

Da Redação | 22/08/2011, 18h30 - ATUALIZADO EM 20/02/2015, 17h22

O Plenário do Senado rendeu homenagem, nesta segunda-feira (22), à poeta Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas. Nascida na Cidade de Goiás, em 20 de agosto de 1889, a escritora morreu em 10 de abril de 1985, aos 96 anos. Publicou seu primeiro livro - Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais - com 76 anos de idade, embora tenha começado a escrever os primeiros textos aos 14 anos.

A iniciativa para a homenagem foi do senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), que presidiu os trabalhos. A sessão do Plenário contou com a presença da filha de Cora Coralina, Vicência Tahan Brêtas, que também discursou, além de netos e bisnetos da escritora. Ainda nesta segunda-feira uma exposição na Biblioteca Acadêmico Luiz Viana Filho, do Senado, será aberta pelo presidente da Casa, José Sarney.

Cora Coralina teve diversos textos lembrados pelos parlamentares durante a sessão de homenagem. A senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO), que disse tê-la conhecido, exaltou a simplicidade da escritora e a "riqueza sem fim" de sua obra e trajetória, identificada com a vida do interior do Brasil. A senadora citou versos e também trechos de prosa de Cora Coralina, nos quais ela se identifica com as pessoas mais simples e prevê sua "sobrevida": "Quando eu morrer, não morrerei de tudo. Estarei sempre presente nas páginas deste livro, criação mais viva da minha vida interior em parto solitário. Tirei-o da minha vida interior, sem ajuda e sem esperança".

- Cora Coralina continua viva na Casa da Ponte, hoje um museu que leva o seu nome; continua viva nos seus livros, nos seus versos e nas suas crônicas. Continua viva na sua culinária. Continua viva na memória de todos aqueles que a conheceram, que conviveram com ela algum momento, que leram algum de seus livros ou de seus versos. Cora Coralina é, para mim, uma das pessoas mais importantes do meu estado - disse Lúcia Vânia, classificando Cora Coralina como "a maior poetisa de Goiás e uma das maiores do Brasil".

O senador Cyro Miranda (PSDB-GO) também manifestou seu apreço pela escritora, que, tendo guardado a maior parte de seus escritos dos 14 aos 76, ganhou o prêmio literário Juca Pato em 1983, pelo livro Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha. O senador mencionou a admiração do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): "Minha querida Cora Coralina: seu Vintém de Cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado".

Cyro Miranda seguiu sua homenagem lendo versos da escritora: 

Não sei se a vida é curta ou longa para nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido
se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe, braço que envolve,
palavra que conforta, silêncio que respeita,
alegria que contagia, lágrima que corre,
olhar que acaricia, desejo que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira, pura enquanto durar.
Feliz aquele que transfere o que sabe
e aprende o que ensina.

Rodrigo Rollemberg, também natural de Goiás, se disse feliz por propor a homenagem a Cora Coralina, de quem se declarou profundo admirador.

- Feliz a nação que vê surgir de suas entranhas um ser tão especial como Cora Coralina. Seu ciclo de vida foi tão fecundo que a morte, ocorrida em 1985, jamais conseguiria apagar a força de suas realizações e a magia de sua obra poética - exaltou, destacando que a escritora alcançou a admiração não só do mundo literário, mas ganhou o apreço de pessoas simples, que "também se extasiavam com seus textos".

Ele ressaltou a identificação de Cora Coralina com as pessoas mais humildes, como lavadeiras, trabalhadoras rurais e prostitutas.

- Destemida, ousava defender ideias avançadas, invariavelmente comprometidas com a luta por uma sociedade mais fraterna, mais solidária e menos desigual. Postando-se ao lado dos mais fracos, ela se via impelida a batalhar por justiça, sobretudo em nome de mulheres - afirmou.

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) participou da homenagem, afirmando que a poeta foi universal a partir de sua experiência local.

- Ela fez a sua poesia olhando ao redor, da janela da sua casa, o rio passando. E olhando o rio passar da janela da sua casa, ela falou para o mundo inteiro porque ela falou para o coração das pessoas - disse.

Para Cristovam, Cora Coralina não merece ser lembrada apenas pelos seus escritos, mas pela sua vida. Sem diminuir a importância literária da poeta goiana, Cristovam reforçou as palavras de Rollemberg: "feliz um povo, feliz uma nação, feliz um idioma que teve uma Cora Coralina".

- Cora Coralina é homenageada não apenas pelo que escreveu, mas pelo que ela viveu, pelo que realizou. Ela não foi apenas uma poeta, ela foi uma historiadora, ela foi uma memorialista, ela foi uma mulher ousada, ela foi uma grande artista da cozinha. Com a gastronomia e com a poesia, ela deixou a sua marca - declarou.

O músico Marcelo Barra apresentou uma canção dedicada à poeta, que, informou, foi gravada quando Cora Coralina estava com 93 anos, em 1992.

Um dos grandes momentos da homenagem foi o discurso de Vicência Brêtas Tahan, a filha de Cora Coralina responsável pela obra da escritora. Vicência procurou ressaltar não apenas o talento literário de Cora, mas sua fibra, lembrando que a mãe não era de se abater perante as dificuldades da vida, procurando guiar-se pelo otimismo.

- Tempo perdido falam os insensatos. Não há tempo perdido. Todo tempo é tempo de semear - sentenciou, mencionando um dos versos mais célebres de Cora.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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